Os destruidores do futuro


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Neste momento discute-se quais setores sobreviverão nesse país tresloucado. O câmbio continua a descer ladeira abaixo. As vozes dissonantes são poucas. De um lado, há os beneficiários do modelo, os rentistas nadando de braçada em juros desproporcionais; o grande capital nacional entrando como se fosse capital estrangeiro, ganhando nos juros e na apreciação do real. Os recalcitrantes desistiram ou por falta de eco, ou por falta de vontade, ou por promessa de barganhas setoriais. No mercado, já se aceita a apreciação cambial como uma realidade definitiva. E discute-se agora quem sairá vivo, quem morrerá. A conta é simples, conforme noticiou outro dia a revista Veja, em uma capa absurdamente desinformada. A Estrela conseguiu sobreviver porque se aliou aos chineses e tornou-se importadora. Nem se pense nos empregos perdidos, nos fornecedores afetados. É como se a soma dos que sobreviverem compensasse o restante, independentemente das condições da sobrevivência. Quem sobreviverá? Setores onde o Brasil possui vantagens naturais, como na biomassa, papel e celulose, mineração e siderurgia. Nos demais, sobreviverá quem conseguir ampliar consideravelmente o conteúdo importado de seus produtos. Significa que parte de seus fornecedores nacionais desaparecerá. Sem condições de concorrer com os importados em produtos de maior valor agregado, os sobreviventes reverterão à condição de “maquiadores”. Haverá perda de emprego de mão-de-obra mais qualificada. Haverá oportunidades no setor da biomassa. E fala-se disso como se fosse algo mais natural do mundo os desabrigados da indústria, empresários, executivos e trabalhadores, se reciclarem e mudarem de profissão. Mais: no novo setor há pouquíssimo espaço para inovação, que é ponto central de desenvolvimento, melhoria de salários, crescimento de empresas. Há uma pesquisa feita nos centros tecnológicos, grandes usinas e uma multidão de pequenos empreendedores plantando ou, no máximo, esmagando parte da produção e entregando o óleo. Nos demais setores, haverá cada vez mais dificuldades em conquistar a produtividade necessária para enfrentar a apreciação do câmbio. A indústria de software, que estava conseguindo entrar no mercado americano, começa a dar sinais de falta de fôlego. A indústria automobilística começa a se preparar para importar carros da China, justamente para competir com os importados avulsos da China. Na entrevista com Fernando Henrique Cardoso, que encerra meu livro Os Cabeças de Planilha, o ex-presidente admite os erros absurdos do câmbio e diz que as “explicações” técnicas para a apreciação - a de que induziria a ganhos de produtividade na economia, como afirmava Gustavo Franco - não passavam de “teorias para racionalizar posições”. Agora, volta-se ao mesmo desatino. Não durará para sempre essa loucura. Mas já começou a segunda rodada de destruição estéril de setores econômicos. O futuro de milhões de pessoas está sendo decidido, neste momento, nas salas do Banco Central e do Palácio de Planalto. Mas, assim como FHC, Lula, no auge da sua popularidade, está ajudando a destruir um pouco mais a estrada para o futuro. O REI DA LÓGICA O economista Fábio Giambiagi propõe que, para os casos de aposentadoria por idade (65 anos) se aumente o tempo mínimo de contribuição de 13 anos para 25 anos. Um homem de 65 anos que tenha contribuído por 9 anos teria que contribuir mais 12 anos. Logo, se aposentará com 75 anos. É inacreditável que barbaridades como essa sejam sugeridas em um Fórum para discutir reforma da Previdência. O REI DA EUGENIA Para o caso da assistência social, Giambiagi sugere que se eleve para 70 anos a idade mínima para receber o benefício. O surpreendente é que Giambiagi garantiu que as resistências a esse ato de eugenia “são bem menores que no passado”. Só se for nos departamentos econômicos de bancos, ou no grupo de conjuntura do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) do Rio de Janeiro, onde ele está lotado. TORÓS DE IDÉIAS Indicado para a Diretoria de Política Monetária do Banco Central, Mário Torós foi sabatinado ontem no Senado. Defendeu o modelo atual de câmbio flutuante, mas sustentou que a política monetária já cumpriu seu papel de trazer a inflação para níveis baixos. Ontem o BC conseguiu segurar a queda do dólar “operando” no mercado. Isto é, entrando sem avisar e comprando sem anunciar previamente o preço. BINGOS Depois da Hurricane, os bingos de São Paulo, Minas e Goiás entraram na mira da Polícia Federal. Antes mesmo da Polícia Federal atuar, o Estado do Paraná tornou-se pioneiro da luta contra os bingos, graças ao polêmico governador Roberto Requião. O governador atropelou a zona cinzenta na qual os bingos se movimentavam e moveu luta implacável contra o jogo, enfrentando interesses pesados. ADVOGADOS PÚBLICOS Desde os anos 80, era comum um tipo de golpe contra os cofres públicos. Uma empresa era grande devedora do INSS. Entrava com uma ação na Justiça. No meio do processo, o defensor público perdia o prazo. Com apenas essa medida, muitas empresas conseguiram se livrar de autuações de valores astronômicos. Seria interessante, apenas para registro histórico, que o INSS divulgasse esses casos.

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