No livro Os Cabeças de Planilha, reconstituo o início do Plano Real e a maneira como o plano foi adaptado para permitir gordos lucros para instituições financeiras ligadas a alguns dos formuladores.
A intenção do livro foi menos a de fazer um escândalo e mais de abrir os olhos para um fenômeno pouco perceptível para a maior parte da opinião pública: a maneira como conceitos econômicos são manipulados, para benefício de alguns grupos ou pessoas.
A economia não é ciência exata. Há muitos caminhos teóricos alternativos para a definição de política econômica. Além disso, os efeitos das medidas econômicas não são facilmente mensuráveis como, por exemplo, um cálculo de engenharia. Medidas tomadas hoje podem resultar em desastres daqui a alguns anos. E, muitas vezes, falta discernimento para a opinião pública conseguir estabelecer as relações de causalidade.
Essas características tornam as políticas econômicas extraordinariamente suscetíveis de manipulação. Especialmente quando não existe na mídia pensamento crítico para denunciar as manipulações, as falsas correlações apresentadas.
Quando falo em pensamento crítico, não é a voz isolada de um ou outro analista. Nas modernas sociedades de massa, o que conta é o coro, é a soma de vozes, é o efeito manada.
De 1995 a janeiro de 1999 poucas foram as vozes alertando para o desastre cambial. Uma semana antes da explosão do câmbio, um canal de TV a cabo entrevistava vários economistas para comprovar que “o mercado não acredita na mudança cambial”. Todos os economistas entrevistados pertenciam à mesma empresa de consultoria. Mas, em função desses truques de edição, apareciam como se fossem “o mercado”.
Os cidadãos menos informados - incluídos sucessivos presidentes da República - acaba acreditando que o coro representa a verdade. Não se dão conta de que o volume do coro é apenas conseqüência de se ter um segmento organizado na economia -os cabeças de planilha do mercado - e analistas amestrados, que aceitam clichês, ou por ignorância ou por malícia.
No início do Real, quem ousasse mostrar os absurdos do câmbio, e os benefícios trazidos para alguns dos economistas, era tachado de adepto da “fracassomania”, integrante do “arco do atraso”, e outras colocações desqualificadoras.
Ao mesmo tempo, havia todo um coro mistificador, elevando a reputação dos economistas às alturas. Fulano é gênio, beltrano é brilhante, e todo esse jogo de construção de reputações baseado apenas em clichês.
Os economistas do Real deram uma “tacada”, com a apreciação do câmbio em 1994. Alguns se tornaram inacreditavelmente ricos. Quem pagou foi o País, com a perda de uma enorme janela de oportunidade - perda que se prolongou no governo Lula, quando o presidente permitiu a Antonio Palocci e Henrique Meirelles trazer de volta a apreciação cambial.
A intenção do livro foi mostrar didaticamente como ocorre essa manipulação, de que maneira se criam clichês, muitos sem pé nem cabeça, para dar sobrevida a um modelo torto. E mostrar também o custo para o País quando se tem uma mídia tão pouco crítica em relação aos rumos da economia.
SUBSÍDIOS
Nunca entendi porque o Brasil é acusado de subsidiar a agricultura, se as taxas de juros dos financiamentos agrícolas são positivas. Aprendi outro dia. O que os países rivais fazem é denunciar os programas de renegociação de dívidas agrícolas como subsídio. Isso devido ao perdão de parte da dívida ou aos prazos praticados. A rigor, não é subsídio. Mas serve de álibi para ações contra o Brasil.
EMBRAER 1
O ex-presidente da Embraer, coronel Ozires Silva, escreve para a coluna para defender a gestão da empresa pré-privatização. Nega que a empresa tenha esbarrado em problemas de mercado, citando o sucesso do Bandeirantes, do Brasília, o Tucano (maior sucesso mundial de aviões militares de treinamento), o caça AMX e o avião agrícola Ipanema. E o EMM 145, de 50 lugares, pronto antes da privatização.
EMBRAER 2
Ozires diz que a crise da empresa coincidiu com a crise mundial do setor após a invasão do Kwait pelo Iraque. Internamente, o governo Collor (de quem Ozires foi ministro) interrompeu todos os financiamentos da Embraer pelo BNDES, através do programa Finex. Só dois anos depois os financiamentos foram reabertos. Essas teriam sido as razões de não ter conseguido vender nenhuma unidade do modelo EMB 123.
EMBRAER 3
Na verdade, em nenhum momento questionei a capacidade de engenharia da Embraer. A coluna apresentava algumas razões para as dificuldades da companhia - entre as quais a enorme burocracia, pelo fato de ser empresa pública, e a proibição de contratar funcionários ou dar aumentos. Mas, desde o final dos anos 70, pelo menos, não me lembro de nenhum ano em que a Embraer tivesse dado lucro.
LADEIRA ABAIXO
A submissão do governo Lula ao Banco Central começa a esbarrar na falta de senso de autoridade. Antes da reunião do Copom, o Ministro da Fazenda Guido Mantega evita criticar o BC, com receio de que ele endureça o jogo, pelo fato de ser criticado. É inacreditável o país de joelhos ante uma diretoria sem nenhuma envergadura técnica ou titulação acadêmica mais relevante.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.