Villares, pai da imagem de Tiradentes


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Pergunte a uma criança, a um professor, a uma pessoa escolarizada qual é a imagem que ela guarda de Tiradentes, figura histórica que nos explica o feriado deste 21 de abril. É impossível não obter deles a descrição de um homem magro, mais alto que baixo, bastante entristecido, moreno de traços judaicos, barba e cabelos longos e desalinhados, um olhar distante, trajando um camisolão branco. Os mais detalhistas lembrarão a corda no pescoço. À parte a corda, essa imagem é muito parecida com aquela que os cristãos têm de Jesus a caminho da crucificação. Seria coincidência? Quem nos garante que o corpo e especialmente o rosto de Joaquim José da Silva Xavier tinham tal similaridade com os de Cristo?A resposta é nada ou ninguém. Estudos que já datam de duas décadas, como o da historiadora de arte Maria Alice Milliet, estão mostrando as origens do equívoco, que abriga em suas raízes a intencional criação de um mito. Voltemos aos fatos. Em 1792, no episódio conhecido como Inconfidência Mineira,que colocou em evidência a cidade de Vila Rica, cujo nome depois foi mudado para Ouro Preto, a Coroa Portuguesa prendeu , julgou, mandou matar um e extraditou vários daqueles chamados “conspiradores”. Eram brasileiros, em sua maioria, mas havia também portugueses para cá vindos ainda pequenos. Grande parte deles tinha concluído na Europa curso de Direito. Advogados, poetas, sonhadores eram mais esclarecidos que outros aqui ilhados, a anos-luz de qualquer conhecimento libertador. Os conspiradores pareciam tocados por algum tipo de idealismo em conexão com as idéas vigentes nos meios universitários, que abriam portas aos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade e desaguaram na Revolução Francesa. Os jovens conspiradores de Minas pretendiam se insurgir contra a cobrança escorchante de Lisboa que taxava 1/5 de todo ouro retirado das minas. Entre eles se encontrava o alferes Joaquim José da Silva Xavier, que era mais conhecido como Tiradentes por suas habilidades com o boticão. É de se supor que tenha sido o escolhido para pagar o pato, tão logo o movimento foi descoberto, graças ao auxílio de mal-intencionado dedo-duro Joaquim Silvério dos Reis. Mais um adendo à comparação com a simbologia da Paixão de Cristo, desencadeada também por um delator, Judas.Tiradentes foi condenado a morte cruel, bárbara, selvagem.Como foi selvagem, bárbara e cruel a morte de Cristo. Depois de degolado, o corpo de Tiradentes foi selvagemente esquartejado e seus descendentes considerados infames. Contam algumas crônicas muito antigas que teve a cabeça espetada num poste, para que a população não pensasse mais que poderia se livrar fácil do jugo português. A fotografia ainda não fora inventada para estampar tão horrenda punição.E só os poderosos tinham dinheiro para pagar aos pintores seus retratos. Assim, só a transmissão oral e os documentos oficiais relataram os fatos. Por quase 100 anos o acontecimento que se tornaria relevante em qualquer registro histórico a partir de século 19 permaneceu em total ostracismo. Depois do dia terrível no Largo da Lampadosa, no Rio de Janeiro, onde Tiradentes foi enforcado, em conclusão de nebuloso processo com cartas marcadas, nada mais se falou, em termos oficiais, sobre a morte de Joaquim José da Silva Xavier. O exílio dos companheiros mais afortunados serviu como um peso maior ao silêncio que se fez. Foi com os primeiros movimentos que redundariam na proclamação da República, em 1889, que a imagem do alferes foi resgatada. Com ela, um aposto: “o mártir da independência” . E um rosto. Para fixá-lo foi convidado o artista Décio Villares, o mesmo que redesenhou a bandeira nacional, esta mesmo que conhecemos hoje. Villares era carioca, tinha 17 anos em 1872, quando foi para a Europa estudar artes plásticas com Paul Cabanel em Paris e com Pedro Américo (o do quadro famoso, Independência ou Morte!) em Florença. Permaneceu uma década no Velho Continente e chegou a expor num salão de Paris. Revelava uma veia para o dramático e o grandiloqüente, fruto da grande admiração que nutria pelo mestre, Pedro Américo. Um crítico reconhecido à época, Gonzaga Duarte, observava que Villares demonstrava segurança e elegância em suas figuras, exibia grandes recursos, na pintura, na escultura e na caricatura. Católico fervoroso no início de sua carreira, converteu-se na França aos princípios positivistas de Auguste Comte. Mas nunca deixou de recorrer às fontes bíblicas como inspiração. Retornou ao Brasil em 1881, fez mais uma viagem à França em 1884, e em 1889 estava de volta entre os que proclamavam a República do Brasil. Coube-lhe modificar o pavilhão nacional acrescentando-lhe a divisa positivista “Ordem e Progresso” e a constelação do Cruzeiro do Sul. E também criar um rosto, um corpo, uma imagem para aquele mártir que vivera quase um século antes e do qual não se tinha nem memória física nem emocional. Villares deve ter recorrido ao seu patrimônio de imagens referenciais religiosas ( é autor de dois famosos São Jerônimos) para desenhar o rosto deste Tiradentes que seria impresso num panfleto e distribuído ao povo pelo Apostolado Positivista no dia 21 de abril de 1893. Era o primeiro feriado da República e permanece como tal até hoje. O desenho de Villares, conferindo uma aura de santidade a Tiradentes, segundo a professora Maria Alice, veio a calhar numa sociedade profundamente religiosa como a brasileira, e no contexto republicano que “preferia transições lentas a rupturas bruscas”. Todos os artistas que se seguiram a Villares não fizeram senão aprofundar tal aura, usada para muitos outros propósitos, alguns bem menos nobres que o da liberdadde. Quem não se lembra das aparições de Itamar Franco na TV, com a imagem de Tiradentes na parede de trás, em mensagem subliminar?

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