Vício nosso de cada dia


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Disse Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, “o vício é muitas vezes o estrume da virtude”. Hoje poderíamos dizer que seria um estrume prazeroso e mais comum do que imaginamos. Quando falamos em vício, logo pensamos em dependência de drogas, tabaco e álcool. Mas se prestarmos um pouco mais de atenção, vamos perceber que vivemos cercados de “viciados”. Pessoas que têm compulsão por alguma coisa e que, na maioria das vezes, esse descontrole passa despercebido não só para quem convive com a pessoa, mas para ela própria. Comer demais, exagerar no café, não conseguir ficar um dia sequer sem usar a internet, passar horas jogando videogame ou em uma academia de ginástica são alguns dos exemplos de vícios comuns. Há também os viciados em trabalho, em compras e até mesmo em sexo. Especialistas evitam a palavra “vício” por causa da conotação negativa que ela carrega. Eles preferem o termo “dependência”, quando se trata de drogas, e “compulsão”, para designar ações feitas repetidamente em um curto espaço de tempo, como fazer compras, malhar em uma academia ou comer. O problema não está em fazer exercícios, ir ao shopping ou ter relações sexuais, mas em viver quase exclusivamente para isso. “Quando a pessoa esquece das outras coisas e vive em função do seu desejo, prejudicando a vida, é preciso procurar ajudar”, afirma Rita Sartori, terapeuta holística. De acordo com ela, o ideal seria o equilíbrio, atividades sem exageros. “A pessoa compulsiva por internet, por exemplo, deixa de fazer coisas importantes como estudar, passear e até ir ao banheiro para ficar na frente do computador”. Seja compulsão por sexo, comida ou internet ,o objetivo é o mesmo: satisfazer a sede de prazer. “Todos temos desejos, mas os compulsivos não têm equilíbrio. É preciso ter consciência corporal de quando o prazer passa a prejudicar”, explicou Rita. Ela acrescenta que os instintos humanos não podem ser reprimidos, mas que o equilíbrio é essencial. Para a terapeuta, as pessoas compulsivas não conseguem lidar com a frustração. “Normalmente são pessoas que sofreram perdas e precisam compensar com alguma coisa que dê prazer e preencha o vazio”. Ela ressalta que a ajuda da família é muito importante para os compulsivos, mas às vezes os próprios familiares não reconhecem a doença por preconceito. “Compulsivos por sexo ou por comida, por exemplo, são vistos como pessoas maldosas e que não querem se ajudar”. CULTO AO CORPO O culto ao corpo perfeito também dá uma generosa contribuição para que o comportamento das pessoas fique ainda mais propenso aos vícios. Exercícios de alta intensidade liberam endorfina, o neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. Mas malhar em excesso pode provocar uma série de problemas para o organismo, como o desgaste das articulações e a fadiga dos músculos. Os que exageram na atividade física podem debilitar o sistema imunológico. O personal trainer e professor de fitness Clayton Carrijo, 26, não vê problemas em fazer de 8 a 9 horas de atividades físicas, de segunda a sexta-feira. Nos finais de semana, ele corre e joga futebol. “Eu era nadador profissional, quando parei de nadar escolhi essa profissão justamente por gostar muito de fazer exercício”. Mas para Clayton, o corpo malhado é conseqüência e não prioridade. “Eu me exercito por satisfação, porque me dá prazer. Eu me sinto motivado, com saúde e com boa auto-estima. O corpo é só conseqüência”.

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