A fraude da constância


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Dando continuidade ao tema separação na maturidade, trazemos hoje uma ilustração sobre como nosso conceito de eternidade pode se transformar numa armadilha. Há um caso real, que até parece piada, para ilustrar bem esse mito de estabilidade, homogeneidade, inércia a partir do casamento, ainda com um acréscimo de desonestidade por parte de um dos parceiros. Consta que uma garota tinha o namorado que todas as suas amigas pediram a Deus: inteligente, bonito até o limite de não tornar as mulheres ao seu lado inseguras e paranóicas de ciúmes, carinhoso e bem-sucedido. Mas a sua grande qualidade estava no companheirismo. Ele era dessas boas companhias para os programas que as mulheres adoram, tipo festas, barzinhos, tardes inteiras cavucando, ao lado da namorada, lojas de shopping em busca de um único vestido. Tudo sem muxoxos nem cara feia. Resumindo, um desses homens sobre os quais costumamos dizer, sublinhando suas virtudes: "esse homem não existe!" E como veremos adiante, esta exata pessoa, o dito cujo da história, o personagem idealizado, não existe mesmo. Mas nesse clima de parceria total ao lado de flores de laranjeiras, buffet e festa dos sonhos, bem-casados embrulhados em crepom brilhante e laçarotes, fogos de artifícios casaram-se. Na noite seguinte à de núpcias, num hotel onde passavam a lua-de-mel, a moça se aprontava toda feliz para o que prometia ser um night tour daqueles na cidade praiana onde se hospedavam quando, de repente, se deu conta de que o marido continuava prostrado na cama, na maior preguiça do mundo, zapeando o controle remoto da TV (coisa, aliás, que ela jamais o vira fazer durante o tempo de namoro). Perfumada, maquiada e vestida, ela perguntou se ele não iria se trocar para saírem, para conhecer a vida noturna da cidade. Muito calmamente ele levantou a cabeça do travesseiro, chutou longe o lençol amarfanhado, com um jeito meio brutamontes que ela também jamais divisara nele, endireitou o corpo ainda sentado na cama e comunicou, quase solene: – Sair? Vida noturna? Nem pensar. Saiba que na verdade eu nunca gostei de sair à noite. Saía por causa de sua empolgação e principalmente porque queria me casar para sossegar de vez. Agora acabou. Não saio mais de casa à noite. O que esse rapaz fez com essa moça foi aplicar nela e, claro, no casamento, o tal beijo da morte logo de entrada. Pois não será morte tudo aquilo que ele anseia? O neutro, o vazio, a ausência de conflito e de novidades e, de comboio, a anulação do prazer numa surpreendente, egoística e unilateral medida, mostrando-lhe uma face desconhecida? Se alguns homens são capazes de artimanhas semelhantes a amansar a água para apanhar o peixe, como no adágio popular nós também não somos tão diferentes assim. Hasteamos virtudes, escondemos defeitos, e isso é, claro, humano e natural até certo ponto. Até o ponto da legitimidade, porque, como compartilhar os lençóis com alguém sem compreender minimamente as latitudes de suas motivações e ações e de suas idiossincrasias? A honestidade é essencial para a sobrevivência e longevidade de qualquer relacionamento. LEMBRANDO PROUST Para complementar a reflexão sobre o grau de fraudulência com o qual conduzimos nossas relações, fiquemos com o escritor francês Marcel Proust, fino observador da vida em sociedade. Proust realizou, sob a forma de romance, o monumental Em busca do tempo perdido, que entre várias qualidades pode ser qualificado como uma galeria da mais variada tipologia humana. Numa de suas descrições sobre relacionamentos, encontra-se clarificado o ponto de vista masculino da forma mais afiada e realística possível: "Quando você passa a viver com uma mulher, rapidamente você deixará de enxergar nela tudo aquilo que fez você amá-la; por outro lado, é verdade que duas partes separadas podem voltar a se unir pelo ciúme. (...) Com medo de perdê-la, esquecemos todas as outras (mulheres). Certos de possuí-las, passamos a compará-la com as outras, a quem sem demora preferimos". CATEGORIAS UNIVERSAIS DA ALMA Não importa que Proust tenha finalizado sua obra há tanto tempo. Certas categorias do espírito humano - e as paixões são algumas delas - são, em determinado grau,9 imutáveis e universais. A subjetividade humana tem aspectos que aparecem na experiência de indivíduos pertencentes a qualquer cultura. Segundo a Psicanálise, o fato de que somos em grande parte governados por impulsos e inibições que não dominamos - cuja força e sentido ultrapassa em muito a consciência - é um princípio que encontramos não só na experiência de gregos da época de Sócrates, em tibetanos medievais e nos românticos modernos. Se você procurar nas tragédias gregas, nos filósofos romanos, poetas da Antigüidade, em Shakespeare etc. encontrará lá quase todas as nossas aflições contemporâneas. ALARMANTE Dados da Organização Mundial de Saúde descrevem a depressão como a forma de sofrimento mental que cresce de forma epidêmica, sobretudo nos países industrializados. Até 2020, se persistirem as tendências atuais da transição demográfica e epidemiológica, a carga da depressão representará 5,7% do montante de todas as doenças humanas. A cultura da medicalização, o consumo desenfreado, a dificuldade de lidar com frustração e angústia diante do que falta (e sempre faltará algo mesmo, a nos remeter a noção de incompletude, necessária para o nosso desenvolvimento), os modelos estereotipados de felicidade (como se este estado pudesse se tornar uma constante em nossas vidas) são apontadas por especialistas como alguns dos combustíveis para o crescimento da doença.

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