Cota para negros


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É conhecida a luta do negro ao longo da história, primeiro para deixar de ser simples objeto e ser tratado como pessoa, depois para conviver com os brancos e ter os mesmos direitos e oportunidades. Ainda existe racismo no mundo. No Brasil também, mas em menor escala. Há sim leis que o punem. Nessa luta pela igualdade, foi criada para os negros uma reserva, ou cota, das vagas em universidades públicas. Medida controversa. Conquanto criada com boa intenção, duvido de sua eficácia. Tirar a vaga de um branco que obteve nota maior é discriminá-lo pela cor, o que fere preceito da Carta Magna. Mas, deixando de lado o aspecto legal, acho que o critério deve ser o preparo do candidato, não sua cor ou raça. Afinal, deve haver a preocupação com a qualidade do ensino e dos profissionais que serão formados. O nível de ensino superior está em queda, como têm mostrado, por exemplo, os exames da OAB. Posso estar enganado, mas as cotas aumentarão a discriminação contra o próprio negro. O que os negros querem, penso, é respeito e igualdade para competir, não piedade. Para mim, impor cotas é considerar o negro um ser de nível inferior, sem capacidade para obter boas notas, que deve ser tratado com mais benevolência. Não creio que ele queira ser visto e tratado assim. Vários colegas e amigos meus, negros, com quem falei a respeito, disseram ser contra as cotas. Para ter mais negros na universidade deve-se ministrá-los, e também aos outros, bom ensino público básico. O problema está na base, não no topo. Com todos recebendo bom ensino básico e convivendo juntos desde cedo sem discriminação nem preconceito, não há necessidade de reserva de vagas na universidade para ninguém; concorre-se em igualdade de condições, entra quem tiver maior mérito. Dizem que as cotas são uma solução provisória, pois melhorar o ensino básico leva tempo. Quem conhece a realidade brasileira, todavia, sabe que tudo que vem como provisório torna-se definitivo e nada melhora, como a CPMF, a alíquota de 27,5% do Imposto de Renda. O negro é tão capaz quanto o branco ou outra raça. Há áreas, aliás, que domina. No imbatível basquete profissional norte-americano, os ídolos são negros. Ídolos de negros e de brancos. Nas Olimpíadas ganham o maior número de medalhas no atletismo. As irmãs Willians brilham no tênis feminino. Na música os negros se sobressaem. Jimi Hendrix revolucionou com seu jeito de tocar guitarra. No jazz e no blues, Miles Davis, John Coltrane, Wayne Shorter, Telonious Monk, Oscar Peterson, Charlie Parker, B. B. King, John Lee Hooker, Billie Holiday, Etta James e muitos outros negros são verdadeiros mitos. O bom samba de raiz vem de quem? Clementina de Jesus, Paulinho da Viola. No rock, Elvis Presley sagrou-se rei cantando como negro. Os cultuados Rolling Stones têm nítida influência negra na sua música. O brilho negro na música não é resultado de cotas. No futebol, do rei Pelé, inúmeros negros fazem fortuna. Sem cotas. Quem legou Pelé, Machado de Assis, Lima Barreto, Milton Nascimento, Nelson Mandella, Kofi Annan, Martin Luther King e muitos outros? No cinema, no fechado mundo hollywoodiano, o prestígio alcançado por Denzel Washington, Wesley Snipes, Morgan Freeman, Sidney Poitier, Samuel L. Jackson, Whoopi Goldberg, Halle Berry e tantos outros negros não foi por reserva de vagas. O trabalho escravo, historicamente ligado ao negro, atinge também o branco. Os trabalhadores trazidos de outros estados para a colheita da cana, que acabam em regime de semi-escravidão, é um exemplo. A mulher, branca ou negra, é discriminada no mercado de trabalho. A vida é difícil para os pobres em geral, não importa a cor, a etnia. Todos precisam batalhar, vencer barreiras para conquistar espaço e respeito. Eu sei bem disso; comecei a trabalhar com doze anos de idade, como bóia-fria. Os negros querem lutar. Uma luta justa, com as mesmas armas. Eu torço por eles, assim como por outros discriminados, pois eles não são os únicos. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça

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