A sapateira Fátima Aparecida Messias, 37, tem um grande medo em sua vida: ficar cega. Com descolamento de retina, buscou ajuda na rede pública. Passou pelo pronto-socorro "Dr. Janjão", por UBS (Unidade Básica de Saúde) e pelo NGA-16, onde ficou seu prontuário. Ficou constatada a necessidade de uma cirurgia e Fátima foi mandada para a fila de espera das eletivas. Tudo isso em 2005. De lá para cá, nada mudou e a mulher nunca foi procurada pelo NGA-16 para passar por mais exames ou marcar a operação. "É complicado demais. Eu sei que posso ficar cega.
Estou esperando há dois anos uma carta ou um telefonema. Mas nunca chega. A sensação é de abandono mesmo, de que a gente nem existe", disse, angustiada.
Consciente da gravidade de seu problema e sem recursos financeiros, Fátima pediu ajuda para familiares e pagou uma consulta particular. Ficou constatado o que Fátima já sabia: se ela não operar logo, ficará cega. "É uma luta contra o relógio.
A cada vez que meus olhos ardem, que sinto algo diferente, vem o desespero. Estou tentando levantar o dinheiro para operar e poder viver em paz. Se depender de tratamento público, duvido que isso acontecerá".
Casos como o de Fátima, por mais absurdos que pareçam, não são raros. Situação semelhante vive a sapateira Sueli Goulart, 22.
Mãe da pequena Emily Goulart da Silva, de apenas três anos, descobriu, há mais de dois, que a criança tem problemas de "carne esponjosa" do nariz, o que lhe causa dificuldades para respirar, sobretudo à noite, sinusite, perda de audição, olfato e até raquitismo. Como Fátima, a garotinha espera uma cirurgia eletiva. "É um tormento. Mal consigo dormir. Dá a impressão de que ela vai morrer sufocada. A papelada dela está lá (Secretaria de Saúde), parada. Pedi um vale para meu patrão, de R$ 120, e paguei particular. É o fim do mundo, mas não tive escolha", disse.
O problema das eletivas é antigo. Ninguém sabe afirmar, ao certo, quantas pessoas aguardam pelas cirurgias. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, seriam aproximadamente 3,5 mil e Franca e outras 1,5 mil na região. Desde o final do ano passado, R$ 1,2 milhão foram disponibilizados para os procedimentos mas, ainda assim, o problema perdura. A Santa Casa garante que está fazendo sua parte e que a Prefeitura é responsável pela administração da fila.
O prefeito Sidnei Rocha (PSDB) foi procurado para falar sobre o problema pelo número telefônico de seu gabinete mas, via e-mail, argumentou que "o assunto deve ser detalhado pelo secretário de Saúde". Este também foi procurado, mas não atendeu às ligações telefônicas e sequer respondeu às questões enviadas pela internet.
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