Ó Pai, ó


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Com duas semanas de atraso em relação ao lançamento, estréia em Franca hoje Ó Paí, Ó, filme de Monique Gardemberg inspirado em enredo de uma peça teatral encenada pelo Bando de Teatro do Olodum. O personagem principal dessa história vendida como comédia, mas que traz implícitas tragédias pessoais tramitando na fronteira tênue entre legalidade e crime, é o bairro do Pelourinho no primeiro dia de um Carnaval não datado. Este espaço urbano pulsa o tempo todo, no compasso da trilha sonora que não concede trégua aos ouvidos do público e traz a assinatura de Caetano Veloso e Davi de Moraes, Margareth Menezes, Tatu, Mariene de Castro, Banda Calypso. Axé music em doses cavalares e insistência quase insuportável na canção título têm um sentido que só nos socorre depois de assistirmos ao filme e pensarmos sobre ele. Se pedissem a Guimarães Rosa para traduzir em língua de mineiro o que significa “Ó Paí Ó”, ele provavelmente diria: “Mire e veja”. Críticos de arte acham melhor verter para o carioquês: “Olhe isso”. Mire, veja, olhe, espectador, todas as histórias que se entretecem para mostrar o que os baianos têm, especialmente os que não conseguem trabalhar com carteira assinada, habitam favelas verticais com água cortada e luz elétrica muitas vezes substituída por velas, trampam no emprego informal, na malandragem, no tráfico, na prostituição, no que der pra garantir o rango - um acarajé no tabuleiro da baiana ou um prato feito no bar do Neuzão (Tânia Toko). Se alguém ainda tinha dúvida sobre o talento de Lázaro Ramos, vá ver o filme pra conferir seu show de interpretação como Roque, um aspirante a cantor. Aliás, o filme se faz com um elenco para o qual o público mais exigente deve tirar o chapéu: Dira Paes como a imigrante Psilene (que não se perca pelo nome de guerra), que volta da Suíça sem um tostão no bolso; Érico Brás, o motorista malandro que se divide entre a mulher grávida (Valdinéia Soriano) e o travesti Yolanda (Luy Arisom, bombando num personagem difícil); Wagner Moura, vestindo bem a pele do traficante Boca, com dente de ouro e um discurso execrável; os meninos Cosme (Vinicius Nascimento) e Damião (Felipe Fernandes), filhos da evangélica Joana, um trabalho extraordinário de Luciana Souza. O excesso de elementos no cenário é intencional e evoca colagem, patchwork, sobreposição, pichação, muitas camadas de sentido que beiram o estresse e podem remeter a uma versão barroca, onde à carnavalização do espírito não corresponde uma espiritualização da carne. Tudo é muito over, muito intenso, muito pesado. E nada é essencialmente linear como pareceria num primeiro momento. A aborteira é a mesma que acolhe e cria crianças abandonadas na rua; o homem que exibe um perfil `legal` e honesto é o mesmo que manda assassinar meninos de rua; a recém-chegada que tece críticas às colegas que vão se prostituir na Europa está falando de si mesma; a evangélica que invoca a toda hora atitudes de seriedade e discrição é uma voyeuse disfarçada. Ó Paí, Ó vale a pena ser visto. Não deixe de atentar, no meio do filme, para a explicação que um personagem confere à sigla ACM. Nem deixe passar batido o diálogo entre Roque e Boca, um dos melhores momentos do filme, sobre racismo e todas as suas chagas. E quanto à música... é o belo que esses brasileiros conseguem produzir num ambiente de hostilidade máxima. Lição inesquecível de sobrevivência.

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