Geni Aparecida Facirole mora em uma casa de três cômodos com o marido, Luiz Ismar Barbosa, na Vila São Sebastião. Com 64 anos, sua tarefa, além de lavar, passar, cozinhar e arrumar a casa, é cuidar de Luiz, que, com 52 anos e dois derrames, não anda e apenas balbucia alguns sons. A renda familiar, um salário mínimo do auxílio-doença, serve para pagar o aluguel, de R$140, as contas de água e energia, alimentação e para o gás de cozinha. Sua vida já seria sofrida, se não fosse um detalhe: ela é alcoólatra.
Sua experiência com vítimas de derrame começou quando cuidava de uma tia, com quem morava. Após a morte da parente, passou a trabalhar como empregada doméstica e faxineira, nunca registrada. Neste período, conheceu Luiz Ismar com quem foi morar há 18 anos. Durante esse período, o marido teve dois derrames cerebrais. Após o segundo ataque, em 2002, Luiz Ismar perdeu a coordenação motora e parou de falar. Coube a Geni se dedicar integralmente ao marido. "Faz quase dez anos que ele teve o derrame. Depois do segundo, ele não conseguiu fazer mais nada. Trabalhei ainda quatro anos".
Geni conta que começou a beber aos 44 anos e diz que o marido também era alcoólatra. "Ele bebia muito. Depois do primeiro derrame, continuou bebendo. Até me batia para que largasse a bebida, mas não adiantou não."
Hoje, o álcool serve, segundo a própria Geni, para suavizar seu sofrimento. "Não é fácil cuidar do Luiz, quando fico nervosa, tomo uma pinguinha para dar uma acalmada. Aí, que é o problema, não consigo parar e passo uns quinze dias bebendo."
Geni tem consciência da gravidade do seu vício e da necessidade de parar de beber. "Queria acabar com esta bebida para cuidar dele do jeito que merece. Só não largo porque não sei onde procurar ajuda".
O descaso com a casa, quando ela está bêbada, é facilmente percebido. Cigarros pelo chão e cheiro forte de urina se contrastam com uma cozinha e uma sala com móveis e objetos organizados.
Consciente da situação, Geni já tem três aluguéis pagos e a despensa abastecida com alguns mantimentos, para evitar que gaste o dinheiro enquanto estiver sob o efeito do álcool.
Com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida no criado-mudo ao lado da cama, Geni lembra que já foi Filha de Maria, professora de catecismo, e ajudava nos cânticos da missa. Após começar a beber se afastou, mas não perdeu a fé. "Já tentei parar, mas não consigo. Se Deus quiser um dia ainda paro com isso", diz, com os olhos brilhando.
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