Comerciantes da capital paulista que vendem calçados para brasileiros legítimos - os pobres das classes C (à qual pertencemos) e D (à qual logo pertenceremos) - reduziram as importações da China neste primeiro trimestre.
Afirmam que o corte maior ocorreu na linha feminina, porque a entrega da encomenda é demorada (de três a seis meses) e quando recebem-na os modelos solicitados já saíram de moda.
Pelo mesmo motivo, também começa a diminuir a importação do calçado esporte masculino (sapatênis, por exemplo), cujos modelos são renovados com freqüência. Mas, segundo dizem, eles ainda mantêm a compra do pretinho básico fabricado na China, aquele sapato feioso, padronizado, alcunhado semi-social, usado em quaisquer ocasiões (de casamento e missa dominical a quermesse e reunião pagã).
Neste segmento de consumo, quanto menor o preço maior a possibilidade de venda. A clientela não questiona a qualidade dos produtos, explicam, mas se preocupa em estar na moda e tem como referência os calçados usados pela classe média. “Por isso estamos preferindo comprar do fabricante nacional, principalmente para ofertar aos nossos fregueses modelos atualizados”, asseguram.
Agora vem o mais interessante: dizem estar substituindo o calçado esporte chinês pelo produzido em Franca. Não citam nomes, mas revelam ter nesta cidade vários fornecedores de calçados sintéticos (plásticos que imitam couro). Há empresas que fabricam 3 mil pares diários de sapatênis com esse material. “Os preços estão muito mais acessíveis. Tiveram de baixá-los para competir com os chineses e levam a vantagem de acompanhar as tendências da moda”, acrescentam.
É uma informação surpreendente, porque se contrapõe à disseminada pelos próprios fabricantes, segundo a qual é impossível concorrer com os chineses no segmento de calçados populares. Porém, não se sabia fora do meio calçadista (ou até nele) que também nessa faixa de consumo o design e a modelagem sintonizados às oscilações da moda podem alijar do mercado interno ao menos parte desses concorrentes.
A informação dos varejistas paulistanos surpreende ainda por revelar a fabricação na cidade de um produto praticamente desconhecido. Imaginava-se a predominância do couro em todos os calçados masculinos francanos. É majoritária a utilização dessa matéria-prima, mas não absoluta. Em outras regiões produtoras, confeccionam-se sapatos femininos com material sintético antes da chegada dos chineses.
Conclui-se que essa novidade, fabricar sapato de plástico, é outra das mudanças ocorridas no parque calçadista francano nos últimos três anos. Juntam-se a elas a entrada de micro e pequenas empresas no lugar de médias e grandes, o aumento da produção de calçados femininos, o maior investimento na linha esporte para jovens, a preferência agora de muitas fábricas mais antigas pelos consumidores da classe A, a desistência de atuar no mercado externo (temporária para alguns, definitiva para outros) etc. etc.
NOVA ETAPA
Conquistar espaço no restrito segmento de calçados de vanguarda, requintados, com o máximo de valor agregado possível, tornou-se a prioridade de Carlos Alexandre Guaraldo há quatro anos, quando assumiu o controle da fábrica da família, a Frank, fundada em 1962.
Essa é uma das indústrias antigas de Franca que permaneceram pequenas mas sólidas, capazes de superar sem traumas as crises de mercado, concorrências predatórias e outras turbulências. “Passamos a investir no consumidor classe A e o resultado tem sido bastante satisfatório”, afirma Guaraldo.
Motivado pelo sucesso da empreitada, ele é um dos poucos calçadistas da cidade que mostra confiança no crescimento de seus negócios neste ano. “Estou animado”, salienta. Reformou recentemente o prédio da fábrica, instalou belo varejo anexo, renovou parte do maquinário e a equipe de vendas. “Conseguimos um posicionamento melhor no mercado, no segmento de butiques, e vamos ampliar esse espaço gradualmente. Renovação é a nossa palavra de ordem”, acrescenta Carlos Guaraldo. Ele concluirá nesta semana a montagem de um banco de dados, com informações sobre novos materiais lançados na Europa, modelagens, inovações tecnológicas, tendências de consumo, dentre outras.
PALAVRAS SÃO PALAVRAS
O novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, garante que o governo federal iniciará estudos para isentar de alguns impostos os setores de calçados, têxteis, confecções e móveis, os mais atingidos pela valorização cambial. Segundo ele, a intenção é aumentar a competitividade desses setores em relação aos importados e que a produção perdida no exterior seja absorvida pelo mercado interno. Palavras são palavras, não há coração partido curado pelo ouvido, dizia o velho bardo inglês.
EFEITO DOMINÓ
"Desde 2005, o processo de valorização do real vem prejudicando fortemente algumas indústrias intensivas em mão-de-obra, como a de calçados, produtos têxteis e móveis. Esses setores não puderam reajustar preços em dólar por causa da forte concorrência internacional, nem conseguiram reduzir custos de forma expressiva, para obter rentabilidade. Muitas exportadoras foram então desalojadas de seus mercados por concorrentes mais competitivos.
Mas, com o dólar agora chegando à casa de R$ 2, os efeitos do desajuste cambial passaram a atingir outros setores. As indústrias automobilísticas, as de eletrodomésticos e até os prósperos fabricantes de telefones celulares já sentem o baque".
(Benjamin Steinbruch, diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional.)
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