Aparentemente vai-se chegando à paz dos cemitérios na questão cambial. Há no ar o conformismo com a situação, a certeza de que nada será feito no curto prazo para reverter esse câmbio. E que a situação internacional é suficientemente favorável para que se mantenha por anos essa loucura, antes que venha a próxima crise nas contas externas.
Enquanto isto, o País curte as viagens internacionais mais baratas. E às empresas que estiverem sendo destroçadas pela competição externa, basta seguir a receita dada por uma revista semanal: tornem-se importadores de produtos chineses.
Fantástico! Queimam-se empregos, queima-se a vida de milhares de empresas, mata-se a oportunidade de empresas inovadoras se tornarem grandes companhias em troca da manutenção desse dólar, que beneficia grupos muito específicos.
Um dos grupos beneficiados são aquelas empresas que querem vender ativos para investidores externos - que calculam seus ganhos em dólares.
Suponha uma empresa que tenha lucro de R$ 10 milhões por ano, em um setor cuja taxa de rentabilidade esperada seja de 15% ao ano.
Com o dólar a R$ 2,50, essa empresa valerá, em dólares, US$ 20 milhões. Se o dólar cair para R$ 2,00, passará a valer US$ 25 milhões. Portanto, a apreciação do real equivale à apreciação de todos os ativos que possam estar na mira dos investidores externos.
Por aí, o interesse na apreciação cambial vem da parte das empresas que querem abrir capital (e aproveitar o momento), dos bancos de investimento (que lucram com a abertura de capital) e dos especuladores que esperam a valorização das suas ações para despejar para os investidores externos.
Outro exemplo?
Suponha um investidor que tomou um financiamento em dólares a 10% ao ano por quatro anos com o câmbio a R$ 2,40. No vencimento, se o câmbio estiver a R$ 1,90, o custo do financiamento (em reais) será equivalente a apenas 3,8% ao ano. Mesmo com o câmbio a R$ 2,20, o custo anual será de meros 7,6% ao ano. Ou seja, ele já tem acesso a juros favoráveis no financiamento externo. Com a apreciação cambial, o custo fica menor ainda porque, com a valorização do real, serão necessários menos reais para pagar o empréstimo em dólares.
É pouco? Vamos a outra conta. O sujeito toma o financiamento de US$ 10 milhões, com o dólar a R$ 2,40 e a taxa a 10% ao ano, em dólares, por prazo de quatro anos. Suponha que aplique essa quantia a uma taxa Selic de respectivamente 20%, 17%, 15% e 12% ao ano. No vencimento, caso o dólar esteja a R$ 1,90, seu lucro será de US$ 8,2 milhões.
A rentabilidade foi infinita porque, no exemplo, apontado, ele não precisou usar seu capital: meramente pegou dinheiro emprestado, aplicou em títulos do governo e, com os juros internos e a apreciação cambial, quitou o financiamento e ainda ficou com US$ 8,2 milhões no bolso.
Quem perde é o conjunto das empresas e dos trabalhadores. Cada vez que a empresa ou investidor traz dólares de fora, esses dólares são convertidos em reais. O excesso de dólares provoca apreciação do câmbio, sufocando a produção interna. Para tirar o excesso de reais da economia, o Banco Central emite títulos, pressionando ainda mais a dívida pública.
BOLHA
Claramente já começou a bolha do álcool, com alguns grupos maquiando velhas usinas ou criando novas especificamente com propósitos especulativos. Isso não comprometerá o futuro, porque o álcool veio para ficar. Mas poderá desorganizar o setor, se não vier acompanhado de uma severa regulamentação. Mas tem muita gente que vai morrer com o "mico" - comprando ações por valor muito superior ao que valem.
ESTRATÉGIA 1
Membro da The Interamerican Ethanol Commision, William Perry concorda que não é o momento de se discutir queda de tarifas protecionistas à entrada do etanol brasileiro nos EUA. Antes das eleições nada será feito. Até lá, não haverá excedente brasileiro para ser exportado. Além disso, preservará o poder de barganha dos produtores americanos, para conquistar parcelas maiores do mercado de gasolina.
ESTRATÉGIA 2
A produção de álcool de milho é claramente deficitária, com impactos enormes sobre o preço dos alimentos. À medida que se amplie o espaço de consumo nos EUA, os grandes lobbies do milho, como a multinacional ADM, terão que escolher entre ser uma empresa que fatura US$ 1 bi em regime monopolista ou US$ 3 bi em regime de abertura. Será esse o momento em que o álcool brasileiro explodirá nos EUA.
ESTAGNAÇÃO
O novo Ministro do Desenvolvimento Miguel Jorge provavelmente acertou o fim das críticas da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Autoveículos) em troca de uma solução para o problema dos créditos de ICMS acumulado pelo setor. Na outra ponta, o Ministro da Fazenda Guido Mantega acenou para setores afetados pelo câmbio, com isenções temporárias de contribuições e tributos.
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