Chego em casa, já na madrugada, às 2 horas, com uma missão: entrar no mundo de Second Life, o universo virtual e on-line que seduz 5 milhões de pessoas em todo o mundo. Primeiro, como toda boa matéria, é necessário pesquisar o que é o jogo e qual o "charme" que atrai tantas pessoas. Pesquiso rapidamente, leio alguns artigos e concluo: a possibilidade de entrar em um mundo meio real meio imaginário, interagindo com outras pessoas, deve ser o grande mote dos que procuram a diversão.
Já previamente preparado, baixo o jogo - 20 exatos minutos, em conexão banda larga - e começo a instalação. Em meia hora, já tenho meu personagem. Nesse mundo, sou Pringoubiust Wilder, ao seu dispor. Escolho com cuidado meu estilo. Afinal de contas, imagem é fundamental, ainda que o mundo seja virtual.
Barba, cabelos pretos, a boa e velha calça jeans - que quase não uso na vida real - e uma camisa bem justa, colcada aos músculos do corpo - que também não tenho na vida real. That`s it, baby, é hora do show.
Entro no jogo e dou de cara com dezenas de outros usuários. Cada um de uma parte do mundo. Puxo papo com uma mulher - linda, curvas perfeitas, cabelos cacheados e ruivos. Começamos uma conversa animada. Os dedos correm rápido, em inglês, pelo teclado. No jogo, ela é Leonor Bade, uma empreendedora que quer construir casas e formar um império do mercado imobiliário. Nas horas vagas, trabalha como stripper em uma boate virtual para ganhar algum e é solteira.
Identifico-me como jornalista e pergunto se posso entrevistá-la. Após alguma relutância, ela aceita. Chama-se Jeane Loren Gold, tem 25 anos e mora em Nova Iorque. Tabalha como vendedora em uma loja na Quinta Avenida. Mora sozinha há dois anos, é solteira. Insisto para que ela me envie uma foto. Sem chance. Ela só afirma que é morena, olhos castanhos.
Pergunto quanto tempo ela passa no jogo. "Duas ou três horas por dia, sempre à noite", ela responde, acrescentando que virou fã porque, no jogo, ela conhece "várias pessoas" e tem chance "de fazer coisas que nunca faria na vida real, como ser uma stripper".
Dou-me por satisfeito com a primeira entrevista. Deixo meu mail pessoal com a norte-americana (que não me escreveu, diga-se) e parto em busca de mais personagens. Encontro um jovem senhor rodando em um cadilac pelas ruas da Ilha Brasil, o principal reduto de brasileiros no Second Life. O "tiozão" parece ter saído de Franca. Começo a conversa descontraído e peço uma carona. Após me identificar como jornalista, o "tiozão do churrasco" - que se chama Leonel Writer no game e Ernesto de Assis na vida real - topa e abre o jogo: está na área para xavecar e ser xavecado. Na vida real, tem 38 anos e mora em Vitória (ES). É casado e tem dois filhos (um menino, de 20, e uma menina, de 15).
Amizade feita, confessa: tem quatro namoradas no jogo. Já conheceu uma delas ao vivo. Se dispõe a me apresentar uma baiana "porreta". "É uma maravilha, conversamos quase todos os dias por horas. É muito gostoto". A imagem não mente: a baianinha tem seios fartos, cabelos pretos e um sorriso encantador (no jogo e fora dele). Falamos pouco. Apenas apresentações triviais e os dois, mais interessados em outros programas virtuais, abandonam-me.
Como bom e velho repórter de política, começo a pesquisar, na internet, se existe algum partido virtual brasileiro no Second Life. Para minha surpresa, existe. Trata-se do PSDB, que havia inaugurado, no fim de março, um diretório virtual. Em uma pequena sala, envidraçada, encontro mesas, cadeiras e, na parede, um manifesto contra o presidente Lula (PT). Não há, contudo, nenhum tucano para me receber. Levemente decepcionado, vou embora.
Botequeiro no mundo real, paro em um bar e peço uma cerveja. Como no Second Life sou desempregado e não tenho dinheiro - lá também se pode trabalhar para conseguir o vil metal, que é chamado de Liden (L$) - "serro" o precioso líquido de um dos companheiros de boteco dando uma tradicional “carteirada”. Para evitar uma ressaca real - já eram 5 da manhã e eu tinha tomado umas duas ou três latas de cerveja - resolvo terminar minha experiência no jogo - por aquela noite - e ir para cama.
ENTRANDO NO JOGO
Second Life é assim. Um espaço livre em que você pode fazer praticamente tudo o que faz no mundo real. Tanto que empresas reais - Petrobrás, TAM, IBM e Volkswagem, para citar apenas algumas - já começam a bolar seus escritórios virtuais no jogo.
Propaganda nas ruas? São tão reais em nosso mundo quanto no virtual. As pessoas? Você tem a certeza de que, do outro lado da tela, alguém, em algum lugar do mundo, compartilha momentos com você. Em um mundo cada vez mais frio, esse fato é preponderante.
Sem entrar em discussões psicológicas - que podem ficar, porque não, para um próximo Se Liga, cabe registrar que as possibilidades de interação oferecidas pelo Second Life são capazes de encantar. Em um mundo de rotinas nem sempre interessantes, estar em contato com pessoas do mundo todo, cada uma com interesses distintos, e ser capaz de criar um miniuniverso ao seu redor faz diferença. E isso explica, em parte, o sucesso desse fabuloso jogo.
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