<p>Na noite da Sexta-Feira Santa, o sargento da Polícia Militar Douglas Benvenutti, 44, saiu com a mulher e um casal de amigos para se divertir em um barzinho de Franca. Ainda na primeira rodada de cerveja, o animado bate-papo foi interrompido pelo toque de seu telefone celular. Do outro lado da linha, o filho do policial, entre soluços, se encarregou de passar a notícia: "Pai, aconteceu uma tragédia".</p>
<p><br />O garoto se referia ao acidente ocorrido na estrada Franca/Ibiraci com um saldo de quatro mortos. "Na hora, pensei que fosse algum engano. Ao confirmar que era verdade, o mundo parece ter desabado”. No interior da Caravan, que ficou destruída em uma colisão com uma caminhonete Mitsubishi, estavam a irmã de Douglas, o segundo marido dela, dois sobrinhos e a namorada deles. Apenas a irmã escapou com vida.</p>
<p><br />Para Douglas a dor fica ainda maior por ele acreditar que a morte dos quatro familiares poderia ter sido evitada não fosse o descaso do poder público. Nas linhas a seguir ele descreve as dificuldades em tentar voltar à rotina do dia-a-dia, mas o maior desafio ainda está por vir: contar à irmã (o primeiro marido dela também morreu em um acidente), se ela sobreviver, que ela perdeu o segundo marido e os dois filhos. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - É possível tirar alguma lição de uma tragédia como essa?<br />Douglas Benvenutti</strong> - A gente sempre tira alguma lição. O que mais nos preocupa e nos deixa chateados é saber que era uma tragédia anunciada, que poderia ter sido evitada. Moradores daquela região fizeram manifestos pela imprensa e questionaram a segurança da rodovia (João Traficante). Esse questionamento, fazemos também. Por que esperaram acontecer para tomar providência? Era necessário uma família perder quatro pessoas para que o poder público entrasse em ação para resolver o problema? É isso que questionamos. Estamos aguardando o laudo pericial, mas tudo indica que as condições da pista favoreceram sobremaneira aquele acidente. </p>
<p><strong>Comércio - Como você ficou sabendo do acidente?<br />Douglas</strong> - Eu havia saído com minha esposa e estava em um barzinho com um casal de amigos. De repente, meu filho ligou para meu celular, dizendo que estava na casa de minha mãe e que ela havia recebido a notícia de que nós tínhamos perdido quatro pessoas. </p>
<p><strong>Comércio - O que passa na cabeça de uma pessoa ao receber uma notícia trágica como essa?<br />Douglas</strong> - A primeira reação, até para defesa do organismo, é duvidar. Não acreditar que aquilo está acontecendo com você, com sua família. Você pensa que é um trote, um engano. Ao perceber que é real, o mundo desaba. Você começa sentir o chão faltar a partir do momento em que liga para algum local e as pessoas confirmam a notícia que ninguém gostaria de ouvir. Alguém falou que era uma Caravan com cinco passageiros. Voltei a fita e me lembrei que minha família havia saído em um carro idêntico com o mesmo número de pessoas. As características batiam e as informações se encaixavam. A sensação é de tristeza, de desamparo, de ficar, realmente, sozinho e ter que começar a procurar alguma coisa para se apegar. </p>
<p><strong>Comércio - Como você está uma semana após a tragédia que se abateu sobre sua família?<br />Douglas</strong> - A parte emocional está abalada e continuamos com vários problemas para resolver. Éramos uma família muito unida. A perda de quatro pessoas na mesma hora nos deixou chocados, abalados. Passamos a refletir sobre muitas coisas que acontecem e que poderão acontecer </p>
<p><strong>Comércio - Você é o único homem de um total de cinco irmãos. A carga de resolver os problemas que ficam recai sobre suas costas...<br />Douglas</strong> - As pessoas não imaginam, mas são muitas as pendências pós-morte a serem resolvidas. Alguém tem que tomar essas providências. São vários documentos que precisam ser providenciados. O Alexandre (cunhado dele) era mecânico e tinha uma firma. São questões de funcionários, compromissos bancários, com clientes. Tudo isso, é preciso ser solucionado da melhor forma. É preciso liberar veículo que está apreendido. Isso gera muitos custos, muitas despesas. Ainda enfrentamos dificuldades com a burocracia, que é muito grande. </p>
<p><strong>Comércio - Como está sua família?<br />Douglas</strong> - Estamos vivendo o dia. A família está muito abalada. Nunca havíamos passado perto de uma tragédia como essa. Sempre fomos unidos, honestos e trabalhadores. Queremos manter essa união. Sempre que nos reunimos para tomar alguma decisão, percebemos que está faltando alguém. Sempre tem um cadeira sobrando,vazia. Essa falta choca. Isso nos deixa muito tristes e magoados. </p>
<p><strong>Comércio - Como encontrar forças para superar a perda de quatro pessoas queridas?<br />Douglas</strong> - A gente procura se confortar na fé, na religião, no conforto que os amigos nos dão. Essa força faz com que a gente prossiga e tente levar a vida, esperando o dia de amanhã. Até agora, a preocupação maior é com minha irmã (Dinamar Benvenutti Queiroz), que continua internada. Como policial, já enfrentei esse tipo de situação, mas, quando é com a gente, ficamos perdidos. Pedi ajuda às enfermeiras do CTI e estamos recebendo todo o apoio. Gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer aos funcionários pela capacitação e atenção. </p>
<p><strong>Comércio - Com uma pessoa da família ainda correndo risco de morte os efeitos da tragédia se mantêm...<br />Douglas</strong> - O drama ainda não acabou. Não é um fato que se encerrou com as quatro mortes, o velório e o sepultamento. Continuamos sofrendo com o estado de saúde de minha irmã. Ele ainda está sob efeito de medicamentos e não sabe do que aconteceu. Nossa preocupação maior é quando essa notícia chegar até ela. Se conseguir se recuperar e sair dessa situação, ela tomará conhecimento da tragédia. Temos medo da forma como vai receber isso. </p>
<p><strong>Comércio - É verdade que ela perdeu o primeiro marido também em um acidente de trânsito?<br />Douglas</strong> - Sim. Há 20 anos, o primeiro marido dela - pai do Hudson - se envolveu num acidente na estrada de Claraval com as mesmas condições: o veículo projetou-se na pista contrária e foi atingido na lateral. Ele morreu na hora. Outras três pessoas que estavam no outro carro também morreram. Agora, ela perdeu o segundo marido e os filhos dos dois casamentos. </p>
<p><strong>Comércio - Como avalia a sucessão de tragédias enfrentadas por ela?<br />Douglas</strong> - Quando pequena, ela teve paralisia infantil em uma das pernas. Andava mancando, mas era muito feliz e o problema não a impedia de levar uma vida normal. Tanto é, que tinha um salão de cabeleireiro e o tocava normalmente. Essas tragédias que marcaram a vida da minha irmã, procuramos entender como uma provação que ela tenha que passar. A gente se pega pelo lado religioso, pelo lado espiritual. </p>
<p><strong>Comércio - Franca é uma das cidades onde mais se morre por causa de acidentes de trânsito no País. Como policial, você encontra uma explicação para tantos desastres?<br />Douglas</strong> - A gente percebe que o estresse do dia-a-dia faz com que as pessoas sempre estejam apressadas para resolverem as coisas. As péssimas condições de nossas vias também contribuem. O somatório dessas situações proporciona o número elevado de acidentes. </p>
<p><strong>Comércio - Como está conseguindo conciliar a dor com as funções de policial militar?<br />Douglas</strong> - O fato de ser policial e ter esse preparo está fazendo com que a gente consiga resolver as situações adversas. O conhecimento profissional ajuda a resolver questões pessoais. </p>
<p><strong>Comércio - Qual mensagem deixaria para os leitores?<br />Douglas</strong> - Precisava muito de fazer esse desabafo. Na Polícia Militar, pregamos o atendimento com qualidade. Essa doutrina deve ser em todos os setores públicos. Devemos nos antever às tragédias. Uma estrada malconservada e um fim de semana prolongado, é óbvio que haverá aumento de veículos. A prefeitura tinha conhecimento da situação. Ao invés de deixar para consertar a estrada no dia seguinte da tragédia, poderia ter feito um dia antes. Eu não estaria concedendo essa entrevista. Estaria com meus familiares que partiram. Quando nos reuníssemos, não veria aquela cadeira vazia.</p>
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