As novas configurações familiares


| Tempo de leitura: 4 min
Novos tempos, novos modelos de família. No texto de hoje pensaremos um pouco, em linhas gerais, sobre o impacto das novas uniões conjugais de casais com filhos que trazem de casamentos anteriores. Aliança ou hostilidade na família contemporânea? Ambas são possíveis simplesmente porque cada indivíduo é único e reagirá à situação conforme o que traz em si. Estamos assistindo e tendo de aprender a lidar com profundas mudanças de valores, comportamentos e identidades dentro do que convencionamos chamar de família. A paternidade e a maternidade, por exemplo, vêm se desvinculando de seu modelo tradicional dentro do esquema de família nuclear e se desdobrando em situações que vão desde a procriação artificial, passando pelas mudanças nas formas de filiação, rearranjos familiares numa segunda união, monopaternidade, homopaternidade. Muitos teóricos convencionaram chamar essas constituições de as “reorganizações” da sociedade. É cada vez mais comum vermos situações de pais separados e com filhos que se unem a novos parceiros que por sua vez também trazem filhos de sua união passada. Temerosos do novo, poderíamos então apostar, fatalisticamente, numa crise das referências de identidade para as crianças envolvidas nessas situações, certo? Não. Novas configurações familiares não devem ser pensadas de modo determinista simplesmente porque não existe um caminho único que defina, de forma definitiva, tampouco normativa, relações entre sujeitos e seus modos de subjetivação, ou seja, a formação de sua personalidade. Supor o contrário, que tais rearranjos desestruturariam irremediavelmente o indivíduo seria desconsiderar sua singularidade - cada um vive uma dada situação de acordo com a "bagagem" que traz, exatamente o que diferencia os seres humanos entre si: a particularidade de seu trajeto a partir de suas escolhas e identificações - e, pior, considerar que o modelo tradicional de família é o único a garantir equilíbrio ou estruturação mais adaptada. Ora, se assim fosse, Freud não teria, a partir dos casos clínicos que atendeu, há mais de um século, numa sociedade que vivia o modelo mais tradicional de família, erigido a Psicanálise - cujo eixo central está no processo de estruturação do sujeito a partir da maneira como assimila os papéis parentais, implicados aí todo o afeto e a agressividade inerentes. RECRIAÇÃO DE MODELOS Não se pode dizer ainda que a sociedade enfrenta a dissolução da família como instituição, e sim a sua reestruturação e readaptação, portanto, de um modo diferente do já conhecido, a sua manutenção. Não se trata também aqui dizer se os novos arranjos são ruins ou bons. Eles simplesmente são, e não há como fugir de sua realidade. Podem também ser enriquecedores, do ponto de vista da ampliação familiar e da renúncia, por parte dos pais, a um modo de vida e relação que não lhes era satisfatório, refletindo a capacidade humana de superar situações difíceis e se recriar continuamente. Pais felizes talvez estejam melhor aparelhados para auxiliar na formação de seus filhos do que aqueles que persistem infelizes em relacionamentos conjugais desgastados, em nome da manutenção de seus papéis cultural e socialmente estabelecidos. ATENÇÃO ÀS CRIANÇAS Para o psicólogo e diretor do curso de Psicologia da Universidade de Franca, Tales Santeiro, pais dentro dessa nova ordem familiar devem ser cuidadosos com os seus filhos frente às mudanças. Veja o que ele tem a dizer a respeito: “A família ainda ocupa lugar central na formação e socialização das crianças e jovens na cultura ocidental e de modo específico na brasileira. As novas constituições familiares provocam um deslocamento do que seriam os papéis costumeiros que há poucos anos víamos sendo desempenhados por nossos avós, pais e irmãos. Essas novas maneiras de a família se estruturar passam a exigir de todos os que nela se envolvem papéis que não estão determinados; pelo contrário, esses papéis têm sido desenvolvidos paulatinamente e têm exigido de todos os membros da nova família uma flexibilidade e criatividade insuspeitadas. É muito comum que nesse emaranhado de novas pessoas, que `con-vivem` sem que necessariamente tenham construído uma história conjunta, conflitos de relacionamentos anteriores, padrões de conduta e de crenças, sejam postos nos relacionamentos atuais. A criança é um dos sujeitos que se encontram nesse novo lugar. Percebo que são poucas as ocasiões nas quais ela tem espaço, concreto e emocional, para digerir tanta mudança. E de todos os envolvidos nessa miscelânea, o pequeno ser deveria ser a prioridade, dentre tantas outras, já que seu desenvolvimento está em construção de modo mais delicado e por isso, necessita ser ouvido e cuidado de modo diferenciado”.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários