"As sociedades industriais são vítimas de suas obras, não apenas em seu ambiente imediato, mas em todo o conjunto de seu espaço vital e, na medida em que este espaço vital adquire dimensões planetárias. Naturalmente, existe uma certa graduação na extensão dos efeitos nocivos ou destrutivos. Alguns atingem apenas o meio local ou regional, outros podem realmente comprometer todo o equilíbrio biológico do globo". Pierre George
O homem, enquanto espécie, é dotado de uma parte de conhecimento e outra de liberdade. Assim sendo, não pode esquivar-se de sua responsabilidade em face de si mesmo e dos outros. A maximização do conhecimento desde a nanotecnologia até às pesquisas espaciais deveria vir acompanhada da maximização das responsabilidades. Após as Revoluções política e produtiva ocorridas no século XVIII, aguarda-se para o século XXI uma nova onda de transformações que irão atingir a civilização de forma que todo os conceitos até agora formulados, sofram profundas transformações. Desde então a espécie humana vem subjugando os seres vivos e utilizando os recursos naturais como se fossem eternos.
A crise do meio ambiente não se define por ações isoladas. Trata-se de uma ameaça de natureza planetária. Apesar de há algumas décadas terem surgido movimentos pela preservação e pela sustentabilidade, quase nada se efetiva na prática. Há um conflito entre o poder econômico e o dever de preservar. A avidez do lucro tem dificultado o processo de conscientização e de sensibilização da sociedade planetária no sentido de mudança de rumos. A humanidade enfrentará profundas e terríveis transformações no meio em que vive. Até o final do século, milhares de plantas e animais estarão extintos em decorrência do aquecimento global. A água doce das geleiras que derretem e avançam pelo oceano altera todo o bioma marítimo, ocasionando a morte de inúmeras espécies desse habitat. Os próprios cientistas que estão no Ártico estudando o efeito estufa estão alarmados com a rapidez dos acontecimentos. Eles afirmam que as transformações são tantas, tão rápidas e simultâneas que mal dá tempo de estudá-las e registrá-las.
Pode-se dizer que a degradação do meio ambiente é tão antiga quanto a humanidade, porém, jamais despertou uma inquietação tão profunda como a atual. No passado acreditava-se que o avanço da ciência traria conforto, paz e felicidade. As desigualdades desapareceriam, sobraria tempo para os relacionamentos, enfim, acreditava-se que a tecnologia em todos os seus âmbitos proporcionaria à humanidade um mundo melhor. Entretanto, a magia do desenvolvimento foi cegando as sociedades a ponto de não mais enxergarem a si mesmas como parte de um todo inseparável. A ruptura entre o humano e o natural, como se ambos fossem feitos de material diverso, acarretou uma crise civilizacional a ponto de romper o ciclo natural da vida? Da natureza? Do homem? Da sociedade. Com isso, todos perderam e se perderam. A natureza já dá mostras de desgaste e, como parte da vida, também sente o vácuo ético que se fez entre a modernidade técnica e a sustentabilidade. Expressão que não esgota o discurso político brasileiro ou americano ou planetário uma vez que é utilizada numa abordagem inutilmente politiqueira do ponto de vista ambiental. Sem mudança de paradigma, sem reflexão, sem educação, sem transformação e sem resgate de valores não se pode pressupor que haja qualquer mudança.
Enquanto a humanidade não se sentir parte dessa `teia` da vida não só planetária, mas universal, continuará a devastar e destruir a própria casa. Enquanto a sobrevivência da espécie não sobrepujar a persistente e impiedosa sede de lucro, prevalecerá esse modelo de pragmatismo utilitarista, individualista, reducionista e cientificista, o qual não possui nenhum compromisso com as atuais e nem com as futuras gerações.
NADIR A. CABRAL BERNARDINO é advogada, formada pela FDF, Pós-Graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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