Meu nome é Maconha


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Esta é a resposta de uma criança com menos de quatro anos à pergunta "qual é o seu nome?". Nós, leitores do Comércio, ficamos assustados quando lemos a matéria daquele adolescente de apenas 12 anos, preso por tráfico. Não queríamos ver nada pior do que isso, mas há. Posso lhes garantir que fiquei assustado ao ouvir de agente de uma das pastorais francanas, ao descrever um de seus atendimentos de rotina, sobre a criança com menos de quatro anos, que lhe respondeu, em várias e repetidas perguntas, que o seu nome é "Maconha". Intrigado, apesar de já imaginar o ambiente familiar, perguntei à agente qual o histórico de vida daquela criança. E a história veio: a mãe é viciada em entorpecentes. A criança foi retirada do convívio da mãe e entregue a avó mas ainda tem contato com a mãe. Que futuro espera esta criança? Com 34 anos, bons anos de advocacia, filho de família estruturada, com atuação na igreja católica e pequena ajuda voluntária em fazenda de recuperação de drogadependentes, somente este ano, há menos de um mês, vi, ao vivo, maconha, crack e cocaína, durante incineração procedida pela Delegacia de Entorpecentes. O meu filho, que tem aproximadamente a mesma idade da criança que mencionei, jamais ouviu o nome `maconha` em nossa casa ou nos ambientes que freqüento. Preocupada com o combate ao uso de drogas, a Delegacia de Entorpecentes de Franca (DISE), num trabalho inusitado e apoiado pela psicóloga Shirlei, criou um centro de atendimento a usuários de drogas, com atividades às segundas-feiras. A delegacia que tem o dever de reprimir o uso e o tráfico de drogas dá um passo a frente e oferece aos usuários possibilidade de início ou encaminhamento para tratamento. Pelo exercício da ação psicológica, tenta entender os fenômenos sociais e familiares que remetem o indivíduo ao consumo. As chácaras de recuperação, cito como exemplo a que eu conheço (Cosfam), também é um exemplo de trabalho voltado à difícil tentativa de recuperação de usuários adultos, homens e mulheres. Sei de outras atividades similares, mas não sei de nenhuma que esteja dedicando tempo e espaço a crianças e a famílias que têm crianças nesse meio. Entendo que se nada for feito para conter, ensinar e retirar do vício ou da convivência do vício as crianças, num futuro de curtíssimo prazo não poderemos fazer mais nada. A árvore do nosso descaso estará frondosa e só colheremos frutos de péssima qualidade. Não podemos acreditar que crianças abandonadas – e também estão abandonadas aquelas que convivem com maus pais e famílias de má índole – não são responsabilidade nossa. Temos de reverter esse jogo. O nome identifica a pessoa, torna-a única dentre milhões. Pesquisando a origem do nome dá até para traçar um perfil. O meu, a exemplo nome é Acir, o mesmo nome do meu pai. E o seu nome, qual é? Tenho a certeza de que você jamais respondeu – mesmo usuário de drogas – que o seu nome é "Maconha". Precisamos fazer, antes que seja tarde, nossa pequena parte para mudar isso. Rápido. Urgente!!! ACIR DE MATOS GOMES é advogado com atuação em Tribunal de Júri

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