O relatório das mudanças ambientais e a questão da auto-sustentabilidade adquiriram tal dimensão nos últimos meses, que, de repente, parece que todos os paradigmas de análise da globalização - tanto dos defensores quanto dos críticos - ficaram defasados, como se toda tradição da análise econômica e sociológica, que remonta ao século XIX, houvesse ficado inexoravelmente velha.
Ontem, durante o 15º Seminário Internacional "Em Busca da Excelência", da Fundação Nacional de Qualidade, tive o prazer de mediar uma mesa que contava, entre outros peso-pesados, com o economista-ecologista chileno Manfred Max-Neef, 70 anos, vencedor do Right Livelihood Award, conhecido como Prêmio Nobel alternativo. Foi professor em Berkeley, Califórnia, morou em Tiradentes durante a ditadura de Pinochet, é pianista e compositor.
Algum tempo atrás, o que diz poderia ser considerado uma excentricidade da contra-cultura. Agora, se tornou instantaneamente atual.
Manfred questiona o modelo econômico atual, baseado na exacerbação do consumo, na explosão das cadeias produtivas e no livre comércio. Não se trata de uma crítica marxista ou de qualquer outra categoria de pensamento convencional.
Um dos pontos centrais de sua crítica é que, quando se incluem as externalidades na avaliação do processo produtivo, o que era eficiente pode se tornar perdulário. Hoje em dia, é visto como maravilha que o leite saia da Áustria, vá para a Itália, onde será convertido em iougurte, com embalagem produzida na Alemanha e a fita em outro país (estou dando o exemplo de memória). Quando se calcula o consumo de combustíveis, a geração de carbono, o modelo torna-se totalmente anacrônico e perdulário.
Não apenas isso. Até 1949, diz ele, não se falava em economias subdesenvolvidas. Cada país tinha suas particularidades, características. Quando Truman falou pela primeira vez em país subdesenvolvido, todos foram colocados na mesma vala comum e submetidos ao mesmo tratamento por parte do FMI (Fundo Monetário Internacional). Depois disso, houve uma globalização intensa que desperdiçou a riqueza das culturas nacionais.
Uma das posições mais provocativas de Manfred é em relação ao desenvolvimento. A partir de um certo nível de desenvolvimento, o crescimento passa a ser improdutivo para o que deveria ser o objetivo final da economia: a busca do bem-estar dos cidadãos.
Há uma saturação da infra-estrutura, obrigando a novos investimentos, uma busca incessante de eficiência, gerando desemprego. Mas a crítica é apenas para países desenvolvidos.
Outra é em relação à incapacidade do planeta de manter o ritmo atual de crescimento, em cima de um modelo baseado no supérfluo.
Manfred é um crítico permanente de alguns pilares da economia. Diz que a "mão invisível" do mercado nunca foi uma idéia central na obra de Adam Smith. Das mil páginas da Riqueza das Nações, há apenas uma menção, sequer um capítulo dedicado à tal mão.
Ironiza a teoria do equilíbrio - uma utopia perseguida por todo economista. Equilíbrio é cemitério, diz ele. O que impulsiona a economia são os desequilíbrios, um excesso de demanda aqui, um choque de oferta ali.
Dá para discordar de muito do que ele fiz. Mas o homem obriga a pensar.
NECESSIDADES
Manfred considera que a humanidade é um organismo com nove necessidades básicas: afeto, liberdade, subsistência, compreensão, participação, criação, identidade, proteção e ócio. Defende que as políticas econômicas sejam feitas a partir de uma matriz que contemple o atendimento de todas essas necessidades. É um crítico acerbo do curto-prazismo que caracteriza as análises de empresas atuais.
BIOENERGIA 1
A Fapesp está bancando investimentos em seis áreas específicas, ligadas à bioenergia. (1) Estudo da planta de cana (2) Estudo da agricultura dessa planta, do plantio à máquina (3) Tecnologias industriais: ou sacarose ou celulose em etanol (4) Uso do etanol para fazer coisas se moverem: células de combustão ou motor à explosão (5) Bio-refinarias: alcoolquímica e (6) Temas horizontais: projetos de pesquisa em áreas como impactos econômico-sociais, questões ambientais, uso da terra.
BIOENERGIA 2
Um dos pontos relevantes no debate sobre o avanço etanol é a questão da cadeia de produção de alimentos. A disparada no preço milho nos EUA mostra as fraquezas do modelo americano. Mais um ponto a favor do Brasil na briga pelo mercado do etanol, já que sobram áreas agricultáveis no território nacional para a expansão da cana-de-açúcar. O governo deve explorar aspectos do gênero para fortalecer a posição brasileira na geopolítica do biocombustível.
ETANOL E O CARRO
O carro bicombustível não emplaca nos EUA, onde não há - nem haverá - postos com bombas a álcool. O potencial do etanol já está dado pelo mercado de gasolina. A briga é pelo aumento do percentual de mistura, o chamado blend. O debate envolve as montadoras de automóveis e as especificações para transformar o etanol em commodity. Com especificações claras de qualidade, o biocombustível pode avançar mais rapidamente. Cada ponto percentual a mais na gasolina significa bilhões de litros.
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