A falta de investimentos em equipamentos, métodos e salários, que levou, dias atrás, os controladores de tráfego a promover o chamado "apagão aéreo" e detonar a maior crise militar dos últimos 40 anos, não se restringe àquele setor. As polícias estaduais vivem um dilema ainda pior. Não dispõem de frota, armamento e nem de efetivo suficiente para sua grande tarefa e, além disso, seus integrantes amargam os mais baixos salários da história. E, diferente dos controladores, que trabalham fechados em suas salas, os policiais são obrigados a sair às ruas e enfrentar a violência no corpo-a-corpo. Ganham mal, não estão equipados à altura da missão e, por conta de tudo isso, ficam expostos a grandes riscos.
Os oficiais da Polícia Militar paulista, por exemplo, tiveram apenas 29% de reajuste de abril de 1995 até hoje, para uma inflação de 150%, e os praças são iludidos com abonos que não se incorporam à estrutura salarial; e, além disso, com o Auxilio Operacional de Localidade, o governo criou policiais de diferentes classes numa instituição onde a unidade é, historicamente, o maior patrimônio. Os mais prejudicados são os policiais do interior. Em muitos casos, um sargento que trabalha numa cidade pequena, ganha menos que um cabo na capital ou numa cidade maior". Mercê desse quadro, os policiais são obrigados a empregar suas horas de folga no "bico" para poderem manter suas famílias.
O resultado é catastrófico. Quartéis, postos policiais e viaturas operados por homens e mulheres extenuados pela jornada dupla, e desmotivados. Uma apatia que se amplia quando verificamos que o salário de um soldado paulista não chega a R$ 2 mil mensais, e os policiais federais inclusive os rodoviários , com funções idênticas aos estaduais, são admitidos com R$ 7 mil mensais, valor que a maioria dos nossos oficiais superiores não chega a receber nem depois de 30 anos de serviço, muito menos os praças.
Longe de pensar que estamos criticando o ganho dos policiais federais. Não concordamos é com o baixíssimo salário dos estaduais, que os obriga a arrumar o segundo emprego e, mesmo assim, muitos deles a morar na favela, andar de ônibus em meio àqueles que no trabalho são obrigados a reprimir, e a correr uma série de riscos desnecessários. Os governantes precisam entender definitivamente que o policial é um profissional que leva nas costas altas responsabilidades e que, para poder bem desempenhar suas funções, carece de estabilidade familiar, econômica e social, e de meios de trabalho. Sem esses requisitos, de responsabilidade do Estado-empregador, ele não reúne condições físicas e nem psicológicas para dar ao serviço público e à comunidade tudo aquilo que, em condições normais, seria capaz.
O governador José Serra, que tem manifestado o desejo de corrigir a grade salarial do Estado, deveria ver e resolver essas distorções antes que nossas polícias - mesmo sem desobediência, motins ou insubordinação - caiam de vez no "apagão" da apatia, do cansaço e até da desnutrição de seus componentes. Se isto vier a acontecer, o caos terá se completado!
TENENTE DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é presidente da Associação dos Policiais Militares do Estado de São Paulo (APOMI)
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