Razões do milagre chinês


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Em sua última carta mensal, o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) traz um artigo de Marcelo José Braga Nonnenberg, do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), tentando definir os fatores que levaram ao chamado milagre chinês. Um dos fatores relevante foi a expansão de Hong Kong. O governo chinês percebeu a oportunidade e em 1980 criou quatro Zonas Econômicas Especiais, iniciando através delas o processo de liberalização do comércio exterior, com forte redução de tarifas. Ali se começou a praticar o moderno capitalismo chinês, como se fosse um laboratório isolado do restante do continente. O segundo ponto foram as elevadas taxas de poupança doméstica, permitindo juros relativamente baixos, viabilizando muitos empreendimentos voltados especialmente para a construção civil. O terceiro ponto foi o aumento do fluxo de investimentos diretos, através dessas Zonas Especiais. Essas áreas passaram a receber incentivos fiscais, terrenos e edificações, permitindo colocar próximos os fornecedores e indústrias similares, centros de pesquisa e incubadoras de empresas. O quarto ponto foi o desrespeito aos direitos trabalhistas, rebaixando o custo da mão-de-obra com oferta quase infinita de mão-de-obra de baixa renda, além da concepção de hierarquia e disciplina dos seus trabalhadores, proibição de sindicalização e ausência de Justiça do Trabalho. Esse ponto fez com que o aquecimento da economia não provocasse um crescimento similar nos salários. O quinto ponto foi o desrespeito à propriedade intelectual. Para entrar na China, as multinacionais eram obrigadas a se associar a firmas locais, que passaram a se apropriar do conhecimento transferido do exterior para produzir por conta própria produtos falsificados. Finalmente, o elemento macro-econômico, com uma política combinando estímulo ao crescimento com controle inflacionário. O sétimo ponto foi a existência de economias de escala, permitindo baratear especialmente produtos siderúrgicos, de cimento, veículos e químicos. Finalmente, uma política de câmbio favorável, combinada com acumulação de reservas. A Carta do CEBC traz comparações interessantes entre a China e a Índia. A primeira grande diferença é na estrutura do PIB. Em 2005 a indústria respondeu por 53% do PIB chinês, contra 27% da Índia. Segundo o National Bureau of Economic Research, a indústria tem crescido a 11% na China e a 6,7% na Índia. No setor de serviços, a Índia cresce a 9,1% contra 9,8% da China. No setor agrícola, a China tem crescido a 3,7% contra 2,2% da Índia. A grande força da China está no campo externo. Em 2006 as exportações responderam por 24,2% do crescimento do PIB, US$ 969 bilhões contra US$ 791,5 bilhões de importações. Para chegar lá, além do câmbio favorável, a China fez investimentos pesados em infra-estrutura de apoio, especialmente estradas, portos e aeroportos, geração e fornecimento de energia. Já a Índia tem no setor de serviços o ponto forte das exportações, que em 2006 alcançaram US$ 112 bilhões, contra importações de US$ 187,9 bilhões. Excetuando serviços, a base das exportações indianas são produtos primários; e das importações, produtos manufaturados. POUPANÇA O excesso de poupança é um problema para a China, responsável pelo superaquecimento de alguns setores da economia. Em 2005 a China recebeu US$ 72,4 bilhões em investimentos estrangeiros, quase 11 vezes mais que a Índia. Nesta, o déficit público tem consumido grande parte do capital acumulado. A CIA estima o déficit público indiano em 52,8% do PIB; na China, é de 22,1%. EDUCAção Apesar dos investimentos, os sistemas educacionais são precários em ambos os países, embora na Índia seja de 24% a taxa de analfabetismo de jovens entre 15 e 24 anos, contra apenas 1% na China. As universidades são acessíveis apenas às classes mais privilegiadas. Mas os dois países conseguem reter cérebros nas indústrias intensivas em tecnologia e no intercâmbio empresarial, e investimento em institutos de pesquisa. DISPARIDADES As disparidades regionais demonstram a pouca preocupação dos dois países com a distribuição de renda. E em ambos há uma crescente reação da população contra a ineficiência do serviço público e atos de corrupção dos governantes. Na Índia é menos claro devido ao sistema de castas. Na China é mais presente, devido à rápida urbanização. Na China não há tradição democrática. Na Índia, há, apesar do sistema de castas. RISCOS GLOBAIS 1 Os maiores fatores de risco para a economia mundial em 2007, para o FMI, estão nas operações financeiras globais. Um efeito adverso em uma delas poderia levar a uma reavaliação dos riscos em outras e o ajuste para um nível maior de volatilidade pode não ser suave. É o chamado efeito-cascata, presente em outras crises globais nos anos 80 e 90. RISCOS GLOBAIS 2 Uma dessas operações é o "carry trade" (captação em moeda com juro menor para aplicação em países com taxas mais altas). Outra ponta é o crescimento maciço nas aquisições. A abundância de financiamento tem elevado muito o valor das companhias. Finalmente, os "hedge funds" (fundos de risco) podem também atuar como transmissores ou amplificadores de choques iniciados em outros lugares.

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