Na virada dos séculos 18 e 19, era comum que prefeitos e outros administradores recorressem a particulares para financiar obras de melhoramento urbano. A participação dos coronéis da época, que chegavam a bancar as obras, foi definitiva para que cidades se desenvolvessem.
Descobertas como essas fazem parte da pesquisa que a professora Anne Hanley, 47, realiza no Brasil, mais especificamente em Franca, Ribeirão Preto, Araraquara, Campinas, São Carlos e mais duas cidades. Professora-assistente da Northern Illinois University, em Chicago, nos Estados Unidos, seu trabalho em história econômica pretende mostrar como os municípios paulistas investiam o dinheiro arrecadado com impostos.
Os levantamentos em Franca incluem busca no arquivo municipal de leis e códigos de posturas da época, relatórios das administrações e balanços de receitas e despesas. "Há mais de cem anos, entre 1880 e 1890, prefeitos investiam parte dos impostos arrecadados em bolsas de valores. Com os recursos dessas aplicações criavam-se redes de saneamento e outras melhorias", diz a pesquisadora.
Também há registros das dificuldades que os administradores enfrentavam. Para contornar o caixa seco, a figura do coronel, geralmente um grande empresário ou fazendeiro de café, era essencial. Ao lado dele, outras personalidades, que não faziam, necessariamente, parte dos governos, contribuíram.
Do que conseguiu, a professora Anne destaca a boa vontade de muitos prefeitos em ver solucionadas questões urbanas como saneamento e fornecimento de água. Para pôr em prática essa política, os administradores utilizavam o dinheiro dos impostos.
Quem ganhasse mais pagava mais, e, dentro dessa lógica, os produtores de café, a grande cultura econômica, eram os reais financiadores do Estado.
A pesquisa aponta ainda uma curiosidade em outro imposto, o de Indústrias e Profissões, que fazia com que proprietários de bares e hotéis, por exemplo, pagassem muito mais que um advogado. "É algo parecido com o que temos hoje nos Estados Unidos. O sin tax (imposto do pecado) sobretaxa produtos como álcool e tabaco, como forma de punir quem compra e quem vende".
Anne fica no Brasil ao menos até agosto, quando vence a bolsa de 12 meses da Fulbright-Hays Faculty, entidade do governo americano que se dedica a estudar as condições socioeconômicas de países em desenvolvimento.
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