<p>Aos 65 anos, 40 de profissão, o médico psiquiatra Içami Tiba coleciona milhares de histórias de pais, filhos e educadores quando o tema é comportamento e relacionamento. As mais de 75 mil consultas ao longo de sua carreira dão suporte para que ele fale com propriedade sobre o assunto. Os números garantem: nos últimos 20 anos, proferiu mais de 3 mil palestras em todo o País e escreveu 18 livros. Um deles, Adolescente: Quem ama, educa, chegou às listas dos mais vendidos no Brasil e teve de ser reeditado. Hoje, soma mais de 800 mil cópias vendidas em incríveis 165 edições.</p>
<p><br />A carreira do psiquiatra não se limitou a ser escritor e palestrante. Içami Tiba é apresentador do programa Quem ama, educa, na Rede Vida, e sempre participa de debates em programas televisivos. No dia 7 de março, esteve em Franca para proferir mais uma palestra. Antes de falar para um público de mais de mil pessoas, Içami recebeu a reportagem do Comércio para uma entrevista exclusiva cujo tema é sua especialidade: o relacionamento entre pais e filhos e, claro, sua carreira. Confira. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - O senhor já consultou 75 mil pessoas, coleciona mais de 3 mil palestras, escreveu 18 livros, um deles best seller em todas as categorias, e atrai, a cada palestra, milhares de pessoas. Qual o segredo do sucesso?<br />Içami Tiba</strong> - Acho que é antecipar o que as pessoas estão precisando de uma maneira mais clara. Eu atendo no consultório e conheço a intimidade dos problemas atuais dentro das famílias e nas escolas. Aí escrevo sobre esses temas. As pessoas de um modo geral não são muito diferentes umas das outras, sob um mesmo denominador chamado época, período. Quando escrevo de alguém, estou escrevendo sobre aquela pessoa que está interessada no assunto. De tanto atender pais e filhos com relação a adolescentes, quando falo sobre adolescentes a pessoa diz: “parece que você esteve espiando a gente”. </p>
<p><strong>Comércio - A linguagem simples que o senhor usa também ajuda?<br />Içami Tiba</strong> - Nessa linha de raciocínio, não há razão para falar de uma maneira difícil, não preciso usar o ‘psicologuês’. O que interessa para mim é que as pessoas entendam o que eu falo e aquilo fique fácil de ser praticado. Tenho uma visão médica sobre o comportamento, vejo onde ele pode estar alterado, vejo as origens e tenho uma proposta de tratamento. Quando dou umas dicas, na realidade já tenho essa experiência prática de ter atendido um bom tempo. As pessoas se vêem em meus livros e isso eu acho muito bom. </p>
<p><strong>Comércio - Há quanto tempo o senhor começou a escrever e por quê?<br />Içami Tiba</strong> - Acho que comecei a escrever há uns 15 anos. Mas até hoje sou muito atualizado, tanto que tive que reeditar alguns livros. Escrevi não por vontade minha. Foi a pedidos. Comecei a fazer palestras e as pessoas pediam a bibliografia para ver onde encontravam o que eu estava falando, qual autor do livro e no fundo eram as minhas idéias. </p>
<p><strong>Comércio - Na sua opinião os pais geram ou ainda tentam gerar filhos à sua semelhança?<br />Içami Tiba</strong> - De jeito nenhum. Os filhos hoje têm duas influências muito grandes para não serem iguais aos próprios pais. Primeiro, os pais se recusam a fazer com seus filhos o que os pais deles fizeram com eles e assim fazem às avessas. Se tornaram muitos liberais, deram tudo que podiam e fizeram muitas coisas pelos filhos. O que acontece, com isso, é que os resultados não demoram a aparecer. Os filhos, hoje, não são muito capazes de se virarem sozinhos, o que não acontecia na mesma intensidade com as outras gerações anteriores. </p>
<p><strong>Comércio - E a segunda influência? Qual é?<br />Içami Tiba</strong> - A própria época . Hoje, os pais não ensinam o que seus filhos estão fazendo. E de onde ele trouxe isso? Dos amigos, na chamada educação horizontal. Um filho aprende com o colega, põe em prática, os pais estranham, mas aceitam. A cabeça do jovem os pais nem sabem por onde anda, porque têm a internet, porque ele vai para a escola muito cedo. Tudo isso favorece essa não semelhança dos pais em relação aos próprios filhos. Não cabe julgar isso, mas é um fato, precisa ser aceito e trabalhado. Ignorar, apenas, não adianta. </p>
<p><strong>Comércio - Até que ponto esse ‘fazer tudo pelo filho’ atrapalha?<br />Içami Tiba</strong> - Atrapalha muito, porque eles perderam a medida. Quando um filho não é capaz, a gente ajuda. Mas, se já ensinou uma vez, o filho tem que produzir. E como a gente não cobra, ele deixa de fazer e ficamos reensinando toda hora a mesma coisa. Por isso que a gente ouve frases do tipo: “Pela milésima e última vez vou arrumar o seu quarto”. Quem fala assim é uma pessoa muito fraca. Ensinou mil vezes e o filho não aprendeu e vai insistir?. Está errado. O filho precisa entender, também, que ele tem responsabilidades. </p>
<p><strong>Comércio - Qual a saída para esse exemplo?<br />Içami Tiba</strong> - Fazer com que o filho comece a arrumar o próprio quarto e não que a mãe arrume e o filho fique olhando. No final, terá uma mãe rabugenta, que fica reclamando de tudo e ele, o filho, não se sente obrigado a fazer nada, afinal, ela própria se antecipou a fazer por ele o que ele deveria fazer.<br />É aí que digo que essa parte ficou atrofiada, porque não se desenvolveu. A gente só desenvolve quando faz. </p>
<p><strong>Comércio - Bom, sabemos que os pais erram mesmo. Mas quais seriam os maiores acertos?<br />Içami Tiba</strong> - Acertos? (pensa). Acho que é difícil avaliar o que está errado e o que está certo. O que dá para avaliar é se as pessoas estão bem. Não sabemos daqui a dez anos como estarão os jovens de hoje. A geração dos games, por exemplo, é altamente irresponsável. São pessoas que arriscam com muita facilidade e acham que a vida se recupera num teclado, num apertar de botão. Perdem, mas vão em frente, não ficam chorando pelo que perderam. Têm uma dose de ousadia bastante grande. <br /></p>
<p><strong>Comércio - Mas os jovens estão ou não sendo preparados para vencer na vida?<br />Içami Tiba</strong> - Aí vêm alguns expoentes que mostram que não é bem no padrão antigo que eles estão vencendo. A geração dos games é o pessoal que bolou o Google (site de pesquisa na internet). Esse pessoal todo que está criando esses sites de conversa, os sites de procura, são todos jovens que trabalham como se estivessem fazendo jogos. De vez em quando, fazem uma jogada errada que dá prejuízo e daqui a pouco fazem outra jogada e estão por cima outra vez. </p>
<p><strong>Comércio - Como impor respeito e não medo aos filhos?<br />Içami Tiba</strong> - Primeiro é ensinar a eles a conseqüência. Quando a gente ensina pelo medo, o medo é paralisante. Se dá coragem, é de desafio e não uma coragem saudável, de curiosidade, de buscar melhores resultados. Ele vai para vencer o medo e não para obter o melhor resultado. O filho deve aprender que tudo que ele faz deve ter uma direção. Se ele quiser hoje ser um comerciante, já comece a aprender a ser comerciante, comece a negociar. Não precisa fazer uma faculdade para depois começar, como era no sistema antigo. Portanto, conseqüência é: aprender com o erro, mas arcar com o erro que cometeu e, nesse arcar, deve-se corrigir o que se fez e deixar o mundo melhor. </p>
<p><strong>Comércio - Uma palmadinha resolve?<br />Içami Tiba</strong> - Não. Palmada não resolve porque mostra a força física prevalecendo sobre a razão. Isso gera uma condição futura em que o filho fica com raiva e, o dia que ele for mais forte, terá paciência curta, vai bater nesse pai, nessa mãe. É isso que ele aprendeu.</p>
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