A instituição da Páscoa, por ordem divina, está descrita no Velho Testamento, Livro de Êxodo, capítulo 12, com origem no vocábulo em hebraico “pessach” que quer dizer “passagem”, uma alusão à saída do povo hebreu do Egito, com travessia do Mar Vermelho.
Tudo começou com a recusa do faraó em autorizar a saída do povo do Egito, o que fez com que dez pragas devastassem o país. Deus avisou que enviaria a décima praga, que era a morte dos primogênitos e ordenou que os judeus sacrificassem cordeiros e fizessem pães ázimos (sem fermento) e que comessem junto com a carne assada e com ervas amargas.
Quando o faraó encontrou seu primogênito morto, autorizou a saída do povo hebreu sem perseguição. Em comemoração a esse livramento extraordinário, todos os anos as famílias hebréias celebravam a Páscoa, que tinha o significado da libertação, não só física, uma vez que eram escravos no Egito, mas também espiritual, sendo que longe da opressão egípcia, podiam caminhar rumo à Terra Prometida e adorar a Deus livremente.
As comemorações judaicas eram feitas de forma contrita e solene.
Todas as famílias se preparavam de forma a obedecer rigorosamente o ritual ordenado pelo próprio Deus. A casa era limpa no dia anterior às comemorações e não se usava o fermento na confecção dos pães, mesmo porque o fermento representava o pecado, o vazio interior.
O sangue do cordeiro sacrificado apontava para Jesus, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. As ervas amargas serviam para lembrar os dias amargos da escravidão e também apontavam para as dificuldades enfrentadas pelo povo de Deus no decorrer da História.
A Páscoa cristã foi instituída por ocasião do Concílio de Nicéia, no ano 325 de nossa era. Comemora-se a ressurreição de Cristo e a “passagem” não somente de uma era como também a passagem de um paradigma a outro. Cristo veio apresentar a todos os que nele crêem, dupla cidadania. A cidadania celeste, a qual ele mesmo anunciou, dizendo aos reis e príncipes que seu reino não era desse mundo, mas que todo o que nele cresse teria a vida eterna como galardão, bem como a cidadania do mundo.
Jesus passou os últimos três anos de sua vida no meio aos marginalizados, dos pobres e oprimidos. Incansavelmente, com uma psicologia extraordinária, ousou dizer, naquela época, que para Deus não há diferença entre judeus e gentios, que todos nascem iguais em direitos e deveres, desde que façam a vontade do Pai.
Nascia aí o princípio da igualdade, implementado pela Revolução Francesa, mais de 1700 anos depois. Como tudo o que é puro, celeste e perfeito, ao ser “tocado” pelo homem tende a se deformar, o significado da Páscoa não poderia permanecer intacto. Em todas as comemorações religiosas, o consumo vem em primeiro lugar. É como se o bolo fosse mais importante que o aniversariante. Como se todos fossem à festa para apreciar o banquete e não para confraternizar com o anfitrião.
Infelizmente, é o mercado do fermento, que faz com que as pessoas intumesçam por fora e fiquem ocas por dentro. O verdadeiro significado da Páscoa relembrando a morte e ressurreição de Cristo, convida a uma reflexão mais profunda sobre o verdadeiro significado da vida. Deveria fazer pensar sobre os relacionamentos entre familiares e amigos, enfim, deveria ser um momento de ‘ressurreição’ de conceitos e valores há tanto tempo esquecidos. Mas não. Tudo é conduzido de maneira a que todos continuem alienados quanto a valores, família, harmonia e paz.
Tudo o que se faz nessa época é ceder lugar ao excesso de consumo de chocolate. E as crianças que não vão ganhar ovos de chocolate vão ficar tristes, certas de que os sentimentos de exclusão e marginalização vão acompanhá-las por toda a vida. E o que é pior, de exclusão em exclusão, podem se tornar um grande peso para a convivência social, num futuro muito breve.
NADIR A. CABRAL BERNARDINO é advogada, formada pela FDF, Pós-Graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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