Encobrindo um erro


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As discussões sobre as razões da apreciação do câmbio são ociosas. Em qualquer país racional, quando o câmbio começa a despencar e inviabiliza a produção interna, a primeira medida é consertar, impedir a continuidade do processo. Por aqui, fica-se em um lenga-lenga interminável. A última do BC foi atribuir a apreciação do câmbio ao superávit comercial. Nos últimos dois meses, o que o BC comprou de dólares foi muito superior aos dólares que entraram via balança comercial. Mesmo assim, o dólar não parou de cair, encerrando a semana nos R$ 2,00. A formação de preços de ativos, como o dólar, se dá nos mercados. Quando as taxas de juros internas são muito superiores às taxas internacionais, e se permite o livre fluxo de capitais, os dólares vão entrando, ganhando nos juros e na apreciação do real, até um limite considerado perigoso. Esse limite é aquele em que as autoridades começam a pensar em reverter a valorização da moeda. Tanto na queda quanto na alta ocorre um movimento de manada. Hoje em dia o mercado começa a apostar no dólar a R$ 1,90. Mas muitos grandes bancos definiram que o "gatilho" (a hora de reverter) será quando o dólar bater em R$ 1,80. Aí, mesmo que o governo não interfira, há um movimento de mola para cima. Os investidores começam a apostar em uma desvalorização do real simplesmente porque acham que outros investidores estão pensando o mesmo. Esses movimentos são quase autônomos, depois que a manada estoura. O ponto central é que o BC ficou prisioneiro do seu erro de, logo após o lançamento do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), ter reduzido o ritmo de queda dos juros. Foi uma atitude voluntariosa, de demonstração de poder, que o jogou em uma armadilha. Poucos dias depois as expectativas de inflação eram muito mais baixas do que aqueles nas quais o BC apostava. O dólar começou a deslizar em seguida, demonstrando na prática a gravidade do erro cometido. A reação do BC foi, de um lado, passar a conversar reservadamente com o mercado a fim de demover as análises que mostravam seu erro. Tratou-se claramente de uma manobra intimidatória, conforme relatos colhidos pela revista Carta Capital. Ao mesmo tempo, seu Departamento Econômico passou a trabalhar com expectativas inverossímeis para preços administrados. Esses preços são de fácil medição, já que entram nessa conta tarifas públicas reajustadas por índices de inflação, muito fáceis de serem estimados, ainda mais com o ano chegando a abril. Curiosamente, o BC passou a trabalhar com expectativas de alta de até 3,6% nesses preços, enquanto o mercado trabalhava com queda de igual magnitude. O outro lado da manobra do BC para ocultar seu erro foi evitar de todas as maneiras explicar sua posição internamente, junto à área econômica ou ao Planalto. Criou-se esse estranhíssimo paradoxo do BC externamente prestar contas (na verdade, tentar intimidar os recalcitrantes do mercado) e internamente não dar satisfações. Com o Ministro da Fazenda Guido Mantega jogando a toalha, com um BC em que o presidente pouco apita, vai se ver o dólar derretendo mais ainda. BACHA E OS JUROS Um dos pais do Real e dos juros elevados, o economista Edmar Bacha preparou um "paper" com o economista Márcio Holland comprovando que entre 1996 e 2006 a taxa de juros efetiva foi muito alta do que aquela exigida pela economia. O que fizeram foi comparar a taxa real de juros estimada com a efetiva (levando em conta o período passado). O BC sempre aplicou taxas muito maiores do que o necessário. RAUL VELLOSO 1 O economista Raul Velloso acaba de publicar a enésima versão do seu trabalho original sobre como os gastos correntes acabarão com o Brasil. Desta vez foi por encomenda da Ação Empresarial e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). "O crescimento do gasto público não é sustentável no tempo, pois em algum momento a carga tributária não mais poderá crescer", é sua conclusão. RAUL VELLOSO 2 Como o pagamento de juros sai do orçamento, e o que não é pago se converte em mais dívida pública, e como é a conta de maior peso da economia, continuamos aguardando que Velloso faça o trabalho completo e inclua os juros em suas projeções. Poderia estimar, por exemplo, qual foi o custo efetivo dos juros adicionais pagos pelo BC, segundo os estudos de Bacha. É conta simples, ainda mais para um especialista. RAUL VELLOSO 3 Provavelmente o que impede Velloso de calcular o peso adicional dos juros é trauma de infância. Qualquer auditor, quando vai analisar as contas de uma empresa, ou de um país, dá especial atenção aos itens de maior peso. Se o de maior peso é juros, as análises têm que focar juros. Se são outros itens, o foco deve ser nas demais contas. Por mais que seus admiradores aguardem, Velloso não consegue chegar nos juros. RAUL VELLOSO 4 Sem os juros, a culpa pela crise brasileira fica restrita a aposentados que ganham salário mínimo, aos beneficiários do Bolsa Família, às verbas de Educação e Saúde - em suma, em todos os itens que constituem obrigação de Estado. Quando se começou a discutir o novo papel do Estado, a idéia original era a de que saísse das atividades produtivas e se concentrasse no social. Mas Velloso é implacável.

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