Cenários a postos, figurinos colocados, textos memorizados e refletores devidamente afinados. Está tudo pronto para mais um evento religioso que acontece há 37 anos em Franca. Hoje, Sexta-Feira Santa, é dia da Igreja Católica relembrar os sofrimentos passados por Jesus Cristo antes de sua morte. Em sinal de luto, nenhuma missa é celebrada, realizando-se, assim, em muitos lugares do País, dramatizações que relatam todos estes últimos momentos vividos por Ele.
A encenação da Paixão de Cristo, que será apresentada hoje, às 9 horas, no Ginásio do Póli, envolve ao todo 80 pessoas que se preparam há dois meses para este dia. A peça é produzida pelo grupo amador "Jovens em Cena", que é composto por crianças e jovens a partir de 8 anos. Os ensaios acontecem na Paróquia São Judas Tadeu, com a presença do pároco frei Mauro Luiz de Oliveira, que além de dar dicas e o apoio necessário aos atores, orienta-os espiritualmente.
Mesmo com tamanha responsabilidade de retratar uma história sagrada difícil e envolvente, o grupo não se intimidou e aceitou o desafio. Apesar da peça ser realizada pela primeira vez no Póli, a apresentação é tradicional e existe desde a fundação da paróquia em 1970. "A encenação era feita em cima de um caminhão, apresentada na Sexta-Feira Santa pela manhã, e foi crescendo, investindo cada vez mais em figurinos e outros elementos", relata Ítalo Fábio Silva, 22, um dos organizadores do evento.
Segundo ele, que desde pequeno está envolvido na iniciativa, mas assumiu a organização há dois anos, o crescimento do projeto foi tão grande que não tinha mais condições de ser feito em um lugar pequeno. A idéia de exibir a peça para um público maior partiu do próprio frei Mauro, que após solicitar o apoio da Feac (Fundação para o Esporte, Arte e Cultura), viu o grupo correr atrás de toda a preparação.
O texto, que é adaptado e a cada ano se encaixa aos temas das Campanhas da Fraternidade, possui um grande número de cenas que prometem arrancar lágrimas do público. O roteiro conta a história desde o início, quando Jesus se reúne com os apóstolos sem a presença de Judas Iscariotes. Além disso, a peça narra desde a passagem em que o apóstolo trai Jesus em troca de 30 moedas até a sua crucificação no Calvário. Dentre os inúmeros personagens da montagem, os principais são Jesus, interpretado pelo sapateiro Éderson Josué de Oliveira Matos, 25, Maria, por Nágila Abrão, uma vendedora de 23 anos, além de Maria de Lourdes Borges Dias, 63, que faz Verônica, uma mulher corajosa que no meio da multidão enxugou as lágrimas de Jesus.
Os figurinos, assim como outros elementos cênicos da peça, foram desenvolvidos pelo próprio grupo. "As roupas, apesar de serem da igreja, foram inovadas com alguns ajustes, mas sem perder a tradição", justifica Ítalo. Além disso, a trilha sonora também foi construída a partir de músicas tocadas na igreja, que despertam o sentimento de cada cena exposta no enredo.
Com anos de exibições o projeto atrai interesse de grande parte da população. A costureira Edivânia Maria Araújo, 40, que acompanha a encenação há três anos, acha maravilhoso o projeto.
Para ela, a encenação traz um sentimento, que é o de ser remetida àquele tempo, presenciando tudo que aconteceu. "Acho uma emoção muito forte, tem muitos momentos em que a gente até chora junto, pois revela bem a realidade e nos faz recordar o que Jesus passou por nós", reflete a espectadora, que também vê na iniciativa de frei Mauro uma chance de ampliação para o público francano. "O frei tomou uma decisão muito acertada, dando oportunidade a quem nunca pôde assistir ao projeto", diz.
A Paróquia São Judas sempre procurou representar a tradição religiosa através da evangelização da peça Paixão de Cristo. Em entrevista ao Comércio, frei Mauro deixou evidente que sua expectativa com a apresentação é grande. "Estou muito contente com a minha convivência com os jovens e confesso que tenho crescido com a experiência de mostrar a eles o seu valor", afirma. Para o frei, os jovens não estão sozinhos na caminhada e como sujeitos de humildade, têm condições de evangelizar. "A encenação é uma prova de que eles devem tomar consciência que não são experiências do amanhã e sim sinais de hoje", conclui o pároco.
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