No início do ano entrevistei o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, como fecho para meu livro Os Cabeças de Planilha, que será lançado na próxima semana.
FHC admitiu os profundos erros de câmbio de 1994 a 1998. Apresentou várias desculpas para não ter corrigido o errado. A principal é que “não havia pressão da opinião pública”. Criou-se uma unanimidade, um pacto de silêncio na mídia, que, segundo ele, amarrava qualquer iniciativa do governo.
A desculpa não basta para absolvê-lo. Os indicadores eram claros sobre a insustentabilidade do câmbio na época. Sabia-se que a manutenção de tal política aumentaria a dívida pública em tal nível que comprometeria por mais de uma década as contas públicas. FHC vaticinava que o mesmo ocorreria agora com Lula.
Ele seria iludido pelo canto de sereia do mercado e só quando a crise explodisse haveria mudanças.
É o Brasilsão velho de guerra, com absoluta carência de estadistas. Ambos - FHC e Lula - são extraordinariamente parecidos no acomodamento político, em transformar a política na “arte do possível” e a política econômica em mero processo de acomodamento de pressões. A cada dia que passa o dólar vai descendo a ladeira. Já está batendo em R$ 2,00. Em breve estará em R$ 1,90.
Ontem houve a demissão do Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio César Gomes de Almeida, porque resolveu tornar públicas suas preocupações com o nível do câmbio
Enquanto isto, o Banco Central continua trabalhando com estimativas de inflação muito acima das do mercado, para preservar o poder de matar a atividade econômica com essa taxa de juros.
Na mídia, a pressão é mínima. Saúda-se o aumento das importações, como se estas não tivessem efeito nenhum sobre produção e emprego domésticos. Permite-se a abertura da poupança interna para aplicar no mercado internacional, como se o País tivesse abundância de capital. Não há cobertura dos setores massacrados pelo câmbio.
Não há um projeto de país em nenhuma parte, nem na oposição nem no governo. O mercado está satisfeito porque consegue ganhar com os juros e com a apreciação do câmbio. Grandes empresas compensam no mercado financeiro eventuais perdas de rentabilidade em sua produção.
Todo o mercado sabe que a apreciação cambial é fruto da política de juros do BC, que atrai dólares através da conta capital. Mas apenas se constata, não se protesta porque todos estão ganhando, hipotecando mais um pouco o futuro do País.
Enquanto isto, comemora-se a nova metodologia do PIB, sem levar em conta que, qualquer que seja ela, o crescimento é medíocre, ainda mais em uma quadra da História em que a economia mundial experimenta as mais altas taxas de crescimento.
Bate um desânimo com a falta de rumo, com a falta de grandeza de Lula agora que, completada a reforma ministerial, fica-se com mais do mesmo.
A cada dia fica mais claro que o Brasil não foi bafejado pela boa sorte. Na maior oportunidade da História, esse longo período que começa em 1994 e se estende até os dias de hoje, um estadista teria conduzido o País para o grande salto.
Infelizmente o destino do País foi entregue a dois presidentes sem grandeza.
CONTRAPONTO 1
Sucessivos governos usaram bastante o recurso do contraponto: um Ministro desenvolvimentista em contraponto a um Ministro da Fazenda mais ortodoxo. Foi assim com Geisel e a dupla Simonsen-Velloso; depois Simonsen-Severo Gomes. Mesmo no governo FHC, José Serra e Luiz Carlos Bresser-Pereira serviam de contraponto a Pedro Malan, embora FHC sempre seguisse Malan.
CONTRAPONTO 2
Com a saída de Júlio César do Ministério da Fazenda, Guido Mantega deixa definitivamente de ser o contraponto ao BC. Haverá dois resultados óbvios. O primeiro, é que o “vilão” do câmbio deixará de ser o presidente do BC para ser o próprio presidente da República. A segunda, é que o poder do BC aumentará substancialmente, sem os grilos falantes da Fazenda. Aumentam apostas do dólar a R$ 1,80.
GERDAU
Não houve o comentado convite de Lula a Jorge Gerdau para assumir Ministério algum, nem o do Desenvolvimento nem um suposto Ministério de Gestão. Nos vários encontros que tiveram, Gerdau limitou-se a defender modelos de gestão para os diversos ministérios, mas dentro de sua pregação usual, de quem ajudou a montar o Movimento Gaúcho e o Movimento Fluminense pela qualidade. Gestão continua não sendo prioridade.
WALDIR PIRES
A não demissão do Ministro Waldir Pires, por Lula, representa um gesto de respeito pela biografia de um brasileiro digno. O não pedido de demissão, por Pires, representa uma falta de desprendimento total, que depõe contra sua biografia. Comprovada sua inapetência para resolver a questão aérea, o mínimo que se esperaria de Pires seria um pedido de demissão que facilitasse uma solução.
BERNARD APPY
O novo Secretário de Política Econômica, Bernard Appy, volta ao cargo que era seu desde os tempos de Antonio Palocci. Appy é uma pessoa educada, dedicada, honesta e... profundamente ortodoxa. Durante o reinado de Palocci e agora, sempre defendeu a política de juros do BC. Sua volta ao posto mostra apenas que Lula conseguiu enquadrar Guido Mantega completamente.
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