Uma crise previsível


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Não há pior crise do que aquela evitável, que só prospera por falta de iniciativa dos responsáveis. A crise aérea é uma soma infindável de incompetência gerencial das diversas instâncias do governo. É incompetência de Lula, por uma seqüência infindável de erros. Sempre tratou o Ministério da Defesa como se fosse uma pasta de segunda, colocando ou ministros interinos (o vice-presidente José Alencar) ou ministros sem nenhuma apetência administrativa, como Waldir Pires. Nesses anos todos manteve a inércia do governo anterior, de não definir nenhuma espécie de planejamento, nem em áreas vitais como o controle aéreo. Como se explicam os pesados investimentos feitos pela caixa preta da Infraero em embelezamento ou construção de aeroportos, e não se tenha investido no essencial? Como se explica esse contingenciamento orçamentário burro, em que Fazenda e Planejamento decidem em cima da planilha os cortes, sem nenhuma avaliação sobre suas conseqüências? Como interpretar a crise dos controladores como conspiração, se quem deu força às suas reivindicações foi o próprio ministro Waldir Pires? Outro ponto grave é a ausência de radares para prevenir crises. Esse papel deveria ser desempenhado pela ABIN ou por uma estrutura de assessoramento do presidente. A alegação do governo de que desconhecia as demandas dos controladores mostra uma falta de estrutura de informações absurda. É demais seis meses em cima de um vulcão, sem que ninguém tenha se dado conta das diversas implicações da crise, a ponto de Lula tomar uma decisão grave em Washington sem dispor de informações confiáveis sobre os desdobramentos da crise. Outro ponto de incompetência foi a própria ação da FAB, que não forneceu os diagnósticos solicitados para a desmilitarização do setor - nem foi cobrada por isso, até que explodiu essa segunda crise. A demonstração de autoridade deveria ter sido dada lá atrás, quando a Aeronáutica demorou para fornecer os estudos. Se lições há para se tirar da crise, são as seguintes: 1. Tem que se criar uma estrutura permanente de informações, a cargo da ABIN, onde questões estratégicas sejam permanentemente monitoradas. 2. Um presidente da República não pode governar em cima de impulsos e intuição. Tem que aprender a se cercar de assessores técnicos capazes de avaliar desdobramentos de decisões, ainda mais em áreas sensíveis. 3. Tem que acabar com o formato atual de contingenciamento de verbas, essa excrescência de tantos anos. O orçamento tem que refletir o mais perto possível as despesas, e tem que ser definido a partir de prioridades claras, e não depender dessa tesoura sem discernimento da Fazenda e Planejamento. 4. A desmilitarização do controle aéreo é inevitável. A vitória dos controladores é impossível, depois que colocaram não apenas o governo mas o País de joelhos. Vai ter que se construir um avião em pleno vôo, criando uma nova estrutura de controladores, em um momento em que o controle aéreo está em mãos da equipe atual. Tem que se providenciar urgentemente a troca do Ministro da Defesa pelo melhor executivo que o governo conseguir convocar. FORÇAS ARMADAS O discurso do presidente da República, de que se empenhará em buscar recursos para reaparelhar as três Forças Armadas, mostra que há muitos anos gestão pública foi reduzida à arte de responder às pressões. As Forças Armadas poderiam desempenhar importante papel no desenvolvimento tecnológico do País, se houvesse uma política consistente de liberação de recursos e uma articulação dos diversos institutos militares. CONTROLADORES 1 A crise aérea é uma demonstração sobeja de como o governo Lula foi incapaz de articular inclusive sistemas de informação minimamente eficientes. Quando estourou a primeira crise dos controladores de vôo, o governo foi apanhado de calças curtas. Seis meses depois foi incapaz de prever a segunda crise, sendo apanhado de calças curtas. Nesse período, não se adotou uma medida sequer capaz de prevenir o desastre. CONTROLADORES 2 Agora, é correr atrás do prejuízo. O setor será desmilitarizado, mas o poder conquistado pelos controladores com a última greve tornou-se uma ameaça. O governo terá que montar um novo sistema em pleno vôo, dependendo dos operadores atuais - que sabem que serão rifados quando o novo sistema estiver pronto. A saída será uma operação de emergência que permita importar controladores de outros países. BÔNUS DO TESOURO O Tesouro Nacional está emitindo novos títulos para captar dólares no exterior. O último lançamento, ontem, foi de títulos atrelados ao dólar com vencimento em 2017. A única explicação que não aparece é a razão dessas emissões. O País tem superávit de dólares (mais reservas cambiais do que passivos cambiais), hoje em dia o excesso de dólares ameaça o câmbio, com a cotação caindo para R$ 2,00. Para que mais? CRÉDITO Para Sérgio Werlang, vice-presidente de crédito do Itaú, o boom do financiamento imobiliário deverá se dar apenas no próximo ano. Hoje em dia, respondem por 2,5% do PIB. No Chile, a proporção é de 15%. Para crescer, não há problemas de recursos. A dificuldade é a demanda. Embora o banco já coloque financiamentos pré-fixados de até dez anos, os candidatos a mutuário estão esperando uma queda maior nas taxas de juros.

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