Nove entre dez calçadistas apontam a concorrência predatória como a principal dificuldade que enfrentam atualmente no mercado interno: fabricantes copiam modelos de outros e ofertam os produtos clonados por preços muito inferiores aos originais. Há casos de calçados negociados até a preço de custo, afirmam.
É uma prática antiga no setor, mas que se acentua nos períodos de queda livre nas vendas externas. Os exportadores redirecionam grande parte da produção ao varejo nacional e o excesso de oferta gera leilões de preços. Estima-se que os embarques do calçado brasileiro ao exterior caíram 33 milhões de pares nos últimos dois anos.
Também não é recente a troca de cotoveladas na disputa de compradores, diante do baixo consumo de sapatos no País especialmente da linha masculina. Agora, porém, outro fator contribui para acirrar ainda mais a concorrência entre os calçadistas, além da maior oferta causada pelo recuo nas exportações. Diante da impossibilidade de competirem com os chineses, muitos fabricantes de sapatos mais baratos passaram a atuar na faixa intermediária.
Guerra de preços à parte, a abundância de modelos semelhantes ou iguais nas prateleiras - de produtores diferentes - ainda está reduzindo a vida útil dos lançamentos bem-sucedidos. Exemplo disso é o sapatênis, cujas vendas entraram em declínio, em decorrência da saturação.
O calçadista Norival Galvani revela que "investir continuamente no desenvolvimento de novos produtos e diversificar sempre" tem sido seu procedimento nos últimos quatro anos, para garantir a posição conquistada no mercado. Nesse período, deixou em segundo plano a marca com seu sobrenome e ingressou com a Schio no segmento de sapatos para jovens.
Ele produz atualmente 1.500 pares diários de calçados masculinos (atinge 2 mil pares em determinados meses), é fabricante há 25 anos e considera inviável “trabalhar hoje com um único perfil de sapato”, como fazia década atrás. Sem as inovações permanentes não se sobrevive no mercado, ressalta.
Para elaborar ações conjuntas que possibilitem a retomada do crescimento do setor, presidentes dos sindicatos calçadistas de todo o País reúnem-se de sexta-feira a domingo da próxima semana em um rancho da família Jacometti, no município de Ibiraci (MG). A iniciativa é da associação nacional da classe (Abicalçados).
Estão programadas palestras, mesas-redondas e debates sobre o comportamento do mercado brasileiro de calçados, as perspectivas para as exportações, o desempenho dos pólos produtores, medidas já adotadas e que ainda precisam ser implementadas para a superação das dificuldades etc.
A Abicalçados não esconde a sua preocupação com a fragilidade atual do setor: "Em toda a história da indústria brasileira de calçados não verificamos, como agora, um período de tantas ameaças à nossa sobrevivência e de tantos obstáculos ao nosso crescimento", assinala.
NOVO CARGO
Saulo Pucci Bueno, do grupo Amazonas, é o novo vice-presidente do Sindicato da Indústria de Artefatos de Borracha do Estado de São Paulo (Sindibor) e da associação brasileira desses fabricantes (Abiarb). As eleições que renovaram as diretorias das duas entidades ocorreram em São Paulo há quinze dias. Ele se tornou ainda o delegado titular do Sindibor no colegiado de representantes da Fiesp, grupo que, dentre outras funções, elege o presidente da federação das indústrias paulistas.
DEMISSÕES
Indústrias gaúchas de calçados voltam a demitir funcionários, pela queda nas suas exportações. Cerca de 800 postos de trabalho já foram cortados desde meados de fevereiro, estima a federação dos sapateiros daquela região.
PRODUZINDO NA CHINA
Há seis meses a Azaléia transferiu parte de sua produção a fabricantes chineses. Esses calçados terceirizados já correspondem a 60% das vendas da empresa nos Estados Unidos e a cerca de 25% dos embarques para a América Latina. O diretor de marketing da Azaléia, Paulo Santana, declarou em Novo Hamburgo, que a perda de competitividade pela baixa cotação do dólar provocou a medida: "Não podíamos ficar passivos diante dessa taxa de câmbio".
POTENCIAL
Estima-se que a indústria brasileira de calçados, couros, componentes e de máquinas tem um faturamento bruto anual de 21 bilhões de dólares.
No ano passado, as exportações de toda essa cadeia produtiva somaram US$ 4,5 bilhões. O setor coureiro-calçadista é formado por aproximadamente 10 mil empresas, que empregam cerca de 500 mil trabalhadores.
MELHORA
Impulsionado pelas promoções, o faturamento das micro e pequenas empresas do varejo paulista de calçados e vestuário cresceu 14,5% em janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano passado.
É o que revela pesquisa da Federação do Comércio do Estado de São Paulo. A entidade acredita que o comércio de roupas e calçados deverá ter desempenho positivo neste ano.
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