‘É a mesma coisa que estar no inferno sendo um anjo’


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Na manhã do dia 23 de março, uma sexta-feira, Isabel Cristina ainda dormia quando policiais armados invadiram seu quarto. Foi presa e algemada na frente das filhas de 10 e 14 anos. Foi colocada em um camburão e levada para a delegacia. Eram por volta das 7h30 e os vizinhos se aglomeraram na rua para ver o que estava acontecendo. Natural de Sertãozinho, Isabel Cristina mudou-se para Franca há 14 anos, logo após se casar. Há 12 anos mora no mesmo endereço, no Jardim Panorama, zona leste da cidade. Trabalha como sapateira em uma fábrica da cidade. No começo do ano, foi renovar sua CNH na Ciretran. Passaram vários dias e o documento não ficou pronto. Ao procurar o despachante para ver o que estava acontecendo, foi informada por uma amiga que havia algum problema envolvendo seu nome. Quatro dias antes de ser presa, descobriu que pesava contra ela uma acusação de assassinato. “Fiquei desesperada e procurei um advogado para me ajudar. Infelizmente, fui presa antes de conseguir provar minha inocência. Tive todas as oportunidades para sair da cidade, mas, como tinha a consciência tranqüila, fiquei na minha casa. Moro há tanto tempo no mesmo endereço, por que não me prenderam antes?”. Separada do marido, ela teve que deixar as filhas com uma irmã em Sertãozinho durante os dias em que ficou presa. “Eu chorava muito ao me lembrar do desespero das meninas. Elas me viram sendo colocada no camburão e perguntaram para os policiais para onde estavam me levando. Nem deram bola. Essa imagem não sai da minha cabeça”. Em Batatais, Isabel foi submetida à revista pessoal, foi fotografada como assassina e colocada numa cela com outras dez presas. “Passei por momentos terríveis. Não consegui comer, nem beber durante os dias que fiquei presa. Fui humilhada e maltratada. Eles (os carcereiros) me encaravam como uma assassina”. A sapateira foi afastada do serviço por um psiquiatra e tem passado os dias à base de sedativos. “Tenho vergonha dos vizinhos. Minhas filhas e eu estamos ouvindo muitos comentários maldosos. Por mais que você seja inocente, as pessoas sempre fazem alguma piadinha. Sou obrigada a conviver com humilhações”. Isabel disse que jamais se esquecerá das 80 horas em que ficou presa sem nada dever. “É a mesma coisa que estar no inferno sendo um anjo. Vivi um verdadeiro inferno. Os policiais perguntavam na cadeia porque eu chorava tanto se era uma assassina. Mesmo não devendo nada, fui humilhada. Me prender, foi fácil. Agora, quero que eles prendam quem matou. Cadê o assassino?”

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