Ilegais, caça-níqueis invadem bares da cidade e movimentam R$ 2 mi por mês


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Homem que se afundou em dívidas conta seu drama ‘Me matava de trabalhar e queimava tudo no jogo’
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“Olha moço, só aposte o que não vai te fazer falta. Cuidado para não se viciar”. O alerta foi feito à reportagem do Comércio por um comerciante que explora caça-níqueis. Ele sabe muito bem do que está falando. O negócio é tão rentável quanto perigoso. Apesar de serem proibidas por lei e terem sua exploração enquadrada como contravenção penal, as máquinas são operadas livremente em Franca. Atrás dos aparentemente inofensivos jogos eletrônicos, esconde-se uma organizada rede que movimenta, pelo menos, R$ 2 milhões por mês na cidade. Sonegação fiscal, pessoas viciadas, criminalidade e descaso da polícia compõem o cenário do mercado dessas verdadeiras máquinas de fazer dinheiro. Em janeiro, entrou em vigor a lei do então deputado Romeu Tuma Júnior proibindo a instalação, utilização, manutenção, locação, guarda ou depósito de máquinas caça-níqueis de vídeo-bingo, vídeo-pôquer e assemelhadas, em bares, restaurantes e similares em todo o Estado. As autoridades parecem não ter sido avisadas. Por se tratar de um mercado totalmente clandestino, não é possível precisar quantas máquinas estão espalhadas por Franca. A Polícia Civil estima que são, pelo menos, mil unidades em funcionamento. Cada uma movimentaria cerca de R$ 2 mil por mês. Elas se propagam por toda a cidade, evidenciando que possam ser em números muito maiores. Na tarde de sexta-feira, a reportagem esteve aleatoriamente em cinqüenta bares espalhados pela Vila São Sebastião, Jardim Aeroporto, Brasilândia, Noêmia e São Luiz. No primeiro bairro, de dez bares, em seis havia máquinas. Uma padaria do bairro parece ter trocado os pãezinhos pelo novo filão: são cinco unidades no mesmo ambiente. O Centro também não está livre. Na Praça Barão, uma lanchonete situada a 30 passos da Base Comunitária Móvel da PM tem três caça-níqueis. O movimento de jogadores é intenso o dia todo. Até mesmo um café do calçadão ofe-rece a atração. “Para falar a verdade, não conheço nenhum bar que não tenha essas máquinas”, comenta o promotor de Justiça Joaquim Rodrigues de Rezende Neto. Para despistar a polícia, o que não parece ser tarefa difícil, os proprietários normalmente escondem as máquinas atrás de geladeiras ou de caixas de bebidas. Um comerciante, que também tem uma máquina no seu botequim, disse que a metade de bares e lanchonetes da cidade dependem delas para pagar aluguel, salários de funcionários ou despesas fixas. A fonte revelou que três “maquineiros” - chefes da rede - distribuem os jogos eletrônicos pela cidade. Um logotipo no equipamento indicaria o responsável pela exploração. É feita uma espécie de parceria: o dono do bar fica com 30% dos lucros. O restante vai para o chefe do esquema. “É um negócio muito bom. Tiro livre uma média de R$ 500 todos os meses. Às vezes, dá até mais”, contou um comerciante. “Parece haver um código de ética entre os envolvidos. Ninguém fala abertamente sobre o esquema”, afirma o promotor. Bom para o exploradores, péssimo para os apostadores. “Já me viciei. Jogo todas as tardes após meu trabalho. Devo apostar aproximadamente R$ 200 por mês. Mais perco do que ganho. De vez em quando, levo algum”, contou o vendedor de CDs piratas, Diego Ramos Dias, 18. Para um morador da zona oeste, a situação é ainda pior. Ele apostava compulsivamente todos os dias. “Me atolei em dívidas por causa do jogo” (leia depoimento nessa página). A reportagem também fez uma fezinha na sexta-feira. O dinheiro foi embora em minutos e o retorno financeiro ficou para a próxima. A explicação para o prejuízo é simples. As máquinas são programadas para dar um lucro médio de 60% a 65% para os proprietários. Ela não paga bônus para um dinheiro que não entrou. As apostas são ilimitadas e podem ser feitas com cédulas ou moedas. O valor mínimo é R$ 0,25. “Passou da hora da polícia dar uma atenção especial a essa prática delitiva. Não é um simples jogo onde se ganha ou perde. A coisa é mais séria, mais grave. Há uma organização bem estruturada por trás, que pode estar envolvida em lavagem de dinheiro e sonegação, entre outros crimes”, diz o promotor. Por cerca de R$ 1,5 mil, é possível comprar peças e montar uma máquina. Uma já montada não sai por menos de R$ 3 mil. Mas, para qualquer interessado, alugar uma em Franca é moleza.

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