Brilho nos olhos. Lucidez. Sorriso nos lábios. Bom humor. Simpatia. Inteligência. Comedimento. O homem verdadeiramente sábio torna-se humilde. E a humildade aproxima, traz para perto, convence. A sabedoria transpira pelos poros, aos 90 anos, completados hoje.
Alfredo Palermo não é pouco. Nascido em 1º de abril de 1917, estudou no Colégio Champagnat de Irmãos Maristas, que abominavam erros e formavam cidadãos a ferro-e-fogo. Foram seus pais, João Palermo e Thereza Tortorelli Palermo.
João queria o filho médico. Alfredo até atenderia, não fosse a figura do defensor público e ex-redator do Comércio da Franca dono de uma das vozes mais claras e tonitroantes que ele já tinha ouvido, Antônio Constantino. Seguia com curiosidade as atuações de Constantino em brilhantes defesas no Tribunal de Franca e decidiu-se por profissionalizar na mesma área.
Peitou o pai: médico não, defensor de júri. João e Maria não tiveram dúvidas: já que é o que quer, vá para lugar certo. E Alfredo foi para a mais importante Faculdade de Direito do País, a do Largo de São Francisco.
Sentou-se junto a proeminentes figuras da vida nacional, a exemplo de Jânio Quadros. No segundo ano, acompanhou a fundação da Faculdade de Filosofia e Letras de São Paulo, prestou vestibular e alcançou êxito: concomitantemente, tornou-se bacharel em Direito e licenciado em Letras, com especialização em Línguas Latinas. Tinha vocação nata para a fala. Inscreveu-se para disputar Concurso Nacional Universitário de Oratória e viu seus esforços compensados: foi o primeiro colocado.
PRIMEIRO DESAFIO
Em 1942, já formado, foi atuar em Marília, como docente convidado. Lá, teve seu primeiro contato com jornalismo, tornando-se, no correr do ano, redator-chefe do Correio de Marília.
Voltou a Franca em 1943. Foi convidado a integrar o grupo de docentes da Escola Normal de Franca, tornada depois Colégio e Escola Normal “Torquato Caleiro”.
Preocupado com os poucos títulos de obras para o ensino do idioma português, produziu seu primeiro trabalho didático, a “Síntese Expositiva do Programa de Português para cursos estaduais”. A impressão foi feita pelo empresário Ricardo Pucci, dono de gráfica e proprietário do jornal Comércio da Franca.
A obra foi imediatamente aceita pelos estudantes. E, com a impressão, nascia a proximidade de Alfredo e Ricardo. Em poucos meses Alfredo começaria a produzir colaborações para o jornal. Corria 1943. No ano seguinte assumiria a coluna Gazetilha, criada por Antônio Constantino. Mais um pouco e seu nome já figurava na capa do jornal, como redator-chefe.
O EDUCADOR
Na Escola “Torquato Caleiro”, Palermo atuou como docente efetivo da cadeira de Português até o início da década de 50. Em 1952, adqüiriu, em sociedade com o professor José Garcia de Freitas, o Ateneu Francano, criado pelo professor Augusto Marques. Iniciaram imediatamente a construção da sede própria da escola (na esquina das ruas Simão Caleiro e Campos Salles) e a transformaram no Instituto Francano de Ensino. A escola se especializou em ensino técnico, com ênfase na formação contábil.
Em poucos anos, evoluiu para se transformar na primeira instituição de ensino superior da cidade, a Faculdade de Ciências Econômicas.
Durante a gestão do prefeito Flávio Rocha (1960 a 1963) aconteceu a encampação da faculdade, pelo município, com decreto de municipalização assinado pelo diretor jurídico da Prefeitura, investido à época do cargo de prefeito, Walter Anawatte. Mais tarde, a ins-titutição tornou-se a Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, base do atual Uni-facef (Centro Universitário de Franca).
Alfredo Palermo partiria, na seqüência, para outras atividades na área do ensino superior. Participou da constituição da Faculdade Francana de Ensino, que ministrava cursos de História e Geografia. Viu nascer também na cidade a Faculdade Pestalozzi, com Matemática e Física. Ambas as instituições acabaram fundidas no embrião da Universidade de Franca (Unifran).
Instalada a Faculdade de Direito de Franca, Palermo tornou-se docente em 1958. Em 1960, era escolhido diretor da instituição.
No mesmo ano iniciou o processo de reconhecimento federal da instituição, esforço que resultou na obtenção da sonhada oficialização através de ato do Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, em 1963.
A experiência e competência de Alfredo Palermo seriam novamente chamadas a trabalhar pelo ensino superior de Franca, no mesmo ano. O deputado estadual Onofre Sebastião Gosuen lograva aprovar na Assembléia Legislativa a criação de um campus da Unesp, a Universidade Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, na cidade. Palermo foi convocado a São Paulo pelo governador da época, Adhemar de Barros, e pelo secretário da Educação, Zeferino Vaz, com intermediação e facilitação de caminhos do assessor do governador, jornalista José Corrêa Neves.
Recebeu deles a incumbência de instalar e dirigir, na cidade, a nova faculdade. O professor ainda tem na memória os termos do documento de nomeação que recebeu do governador: “Fica designado o professor Alfredo Palermo para instalar e dirigir a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Franca. Seis de Junho de 1963”.
A faculdade nascia mas não tinha sede física. A primeira turma estudou em sala cedida pelo diretor Júlio César D’Elia, na Escola “Torquato Caleiro”. No ano seguinte, com o término do prédio da também nova escola “Homero Alves”, as turmas da Unesp foram deslocadas para lá. Mas era indispensável encontrar um local definitivo para o campus.
A Congregação das Irmãs de São José, que tinha construído e ocupado o prédio do Colégio Nossa Senhora de Lourdes por várias décadas, com internato feminino, procurou Palermo e lhe ofereceu a construção, em função do término de suas atividades educacionais em Franca. O preço: oitocentos mil cruzeiros.
Interessado, Alfredo ficou sabendo que uma indústria de calçados local havia procurado as irmãs e oferecido dois milhões de cruzeiros, pela propriedade. Desistiu. Foi, no entanto, novamente procurado pelas freiras, que renovaram a proposta, dizendo que gostariam que o prédio continuasse escola.
Alfredo Palermo levou a proposta ao governador do Estado, Abreu Sodré. O secretário da Fazenda, “dono do dinheiro”, era Luiz Arrobas Martins. O professor apresentou sua pretensão e deu o preço. Contou o caso da indústria de calçados. Contou sobre o desejo das Irmãs de São José.
O secretário enviou a Franca peritos avaliadores que voltaram a São Paulo com o veredicto: o prédio valia 1,8 milhão de cruzeiros. Arrobas Martins convocou as irmãs e lhes pediu que refizessem o ofício a partir do novo preço, porque o negócio interessava ao Estado. Elas não mudaram nada. O que haviam pedido a Palermo, confirmaram ao secretário. O negócio foi fechado na hora: por 800 mil cruzeiros, a Unesp de Franca tinha sua sede.
O POLÍTICO
Palermo ministrava uma de suas aulas na Faculdade de Direito de Franca quando bateu à porta da sala André Franco Montoro, presidente nacional do Partido Democrata Cristão (PDC), contemporâneo do professor na Faculdade do Largo de São Francisco e que se tornaria, décadas mais tarde, governador de São Paulo. Montoro foi direto ao ponto: queria Palermo na disputa para deputado federal. Palermo aceitou, para defender a Educação.
Foi o segundo deputado federal mais votado no Estado: 7,6 mil votos. O primeiro foi o professor Queiroz Filho (que teve 12 mil votos) e que seria chamado a integrar o governo de São Paulo após um ano e pouco de mandato, deixando a Palermo a oportunidade de assumir o cargo.
Ele atuou, a partir de 26 de junho de 1955, por dois anos. Seus dotes de grande orador tornaram-se respeitados, a ponto do também deputado Menotti Del Pichia considerá-lo o “Deputado do Brasil”, pela defesa intransigente da Educação não apenas no Estado de São Paulo. Presidia a casa, Ulisses Guimarães.
Palermo considerou a experiência como válida mas preferiu deixar a política e tornar a seus afazeres de professor, jornalista e escritor.
O HOMEM
Alfredo Palermo nasceu em Franca, filho de João Palermo e Tereza Tortorelli Palermo, a primeiro de abril de 1917. Completa hoje 90 anos. Casou-se com Nydia de Castro Palermo em março de 1943. É pai de Maria Tereza, licenciada em Letras, casada com Torquato C. Caleiro Carvalho; Alfredo Júnior, agrônomo, casado com Maria Helena Tenório; Carlos Eduardo, advogado, casado com Fernanda Kellner de Oliveira Palermo. Tem quatro netos: André P. Carvalho, engenheiro; Adriana Carvalho Palermo Viola, advogada; Daniel Rached Palermo e João Wilson.
Doutorou-se pela Universidade de São Paulo em 1972 e foi livre-docente e titular, por concurso, na Unesp. Foi Governador do Distrito 4540 de Rotary e presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seção de Franca, no biênio 1971/1972.
Escreveu e publicou a primeira obra sobre Estudos dos Problemas Brasileiros, quando da criação de matéria homônima no currículo das escolas secundárias brasileiras.
De sua lavra são, também, Estudos Sociais, Direito Social no Brasil, Sete Apontamentos de Direito Público, Protesto de Títulos, Franca - Apontamentos de sua história, usos e costumes, Letras Avulsas e Ritmos Proscritos, Os Direitos Individuais e a Constituição do Império, Moral e Civismo na Legislação Brasileira.
É imortal das Academias Francana e Ribeirão-pretana de Letras. Completa, em 2007, 64 anos de atividades ininterruptas no Comércio da Franca, assinando a Gazetilha e Letras Avulsas.
Integra ainda o Instituto Histórico e Geográfico do Estado de São Paulo.
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