O sapateiro Éderson Josué de Oliveira Matos, 25, conta os dias com ansiedade para a chegada da Sexta-Feira Santa. Pelo quarto ano consecutivo, ele interpretará Jesus e terá como missão arrancar lágrimas do público. Se depender de sua disposição e preparação, ele conseguirá.
Desde que o Carnaval acabou, Edérson parou de fazer a barba e iniciou um regime. As orações também são freqüentes e as falas já estão todas decoradas. “Quero que as pessoas vejam Jesus na minha pessoa. Preciso passar para o público tudo o que ele sofreu”.
De acordo com Matos, a entrega acontece de corpo e alma e parece dar resultado. “Peço para os jovens que interpretam os soldados me baterem de verdade com o chicote. Além disso, solto o meu corpo quando caio com a cruz. Em nenhuma das cenas sinto nada. É incrível, mas só vou ver as cicatrizes no dia seguinte”.
Para ele, a recompensa é valiosa e pode ser vista no rosto das pessoas ao decorrer das cenas. “Muitas se transformam, se sentem tocadas. Para mim isso é maravilhoso”.
Como ele próprio reconhece, só mesmo assistindo, in loco, é possível se ter a idéia real de sua interpretação. “As pessoas chegam em mim e falam que não conseguiram acompanhar as cenas devido a tamanha realidade”.
Sem formação profissional na área - antes Edérson só tinha feito peças infantis na escola -, ele diz perder em média três quilos após as cenas. “As cenas são densas e, como sou muito tímido, aproveito o momento para me soltar, me expressar da melhor maneira possível”. Ainda segundo ele, o momento mais doloroso é quando Jesus fica pregado na cruz. “Nessa hora meu corpo adormece, começa a incomodar por ficar na mesma posição, mas não sei de onde tiro forças e permaneço firme”.
Emoção? Para o ‘ator’ todas as cenas são fortes, mas o encontro de Jesus com sua mãe ganha destaque no espetáculo. “As pessoas não conseguem conter as lágrimas, até mesmo eu sinto vontade de chorar”.
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