Em qualquer idade e circunstância, uma separação é difícil e dolorosa. É possível que mais ainda quando você chegou aos 40 anos ou mais e passou a metade desse período compartilhando sua vida com um homem, num casamento que recentemente se desfez.
Inicia-se então um caminho que é todo feito de estranhamento, a começar pela constatação de que a relação desandou. ‘Amar é mudar a alma de endereço’, escreveu o poeta Mário Quintana. E eu acrescentaria que separar é tentar reencontrar uma morada outra, mais arejada e por um bom tempo solitária para essa alma machucada.
Uma das grandes dificuldades na vida em comum é o reconhecimento da crise na relação, perceber honestamente que a partir de um determinado ponto, limite quase sempre difuso, não-identificável, o casamento se tornou insustentável e que há uma bifurcação se impondo: resistir e adiar indefinidamente qualquer passo, corroída, no entanto, por dentro; manter um contrato que já pode ter se tornado destrutivo ou optar por sua ruptura e arcar com todas as suas conseqüências.
A partir daí, em litígio ou não, arriscar-se a conhecer uma faceta inexplorada do outro e também de si mesma, já que nos momentos de separação inúmeras crises mútuas e individuais se impõem de modo, não raro, violento.
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche captou bem esse momento crucial de nossa existência quando escreveu que o reconhecimento da afinidade entre duas almas não se dá no modo como elas se aproximam e sim, na maneira como se afastam.
ABRINDO MÃO DA IDÉIA DE ETERNIDADE
Talvez a mais aguda e desoladora experiência humana que começamos a viver logo na infância e repetimos ao longo de nossa existência, sem distinção de sexo, seja a quebra da fantasia do vínculo eterno, isto é, abrir mão da idéia de constância e eternidade, reconhecer a finitude das coisas, dar-se conta finalmente de que a expressão “e viveram felizes para sempre” só pode sobreviver mesmo confinada aos contos de fada e romances açucarados.
O desejo comum de que tudo permaneça num contínuo estável sem solavancos, sustos ou transformações, em suma, de que os cônjuges serão eternamente os mesmos e que a felicidade pode ser alcançada de modo permanente como a grande aspiração da união: o casamento fornece um caráter (ou a ilusão) de permanência ao exorcizar, em si, o temor da perda do outro, daí a sensação de segurança que ele contém. Aliás, o casamento e outras tantas medidas que arranjamos servindo muitas vezes como a tentativa de burlar a grande angústia humana, que é a da nossa própria finitude.
Buscamos artifícios que nos façam acreditar na imortalidade e, no casamento, a reprodução desse parâmetro é freqüente.
Sintonizados até que a morte os separe, a mensagem subliminar.
Mas não é a morte que os separará se assim se colocarem numa relação. Esse princípio de disrrupção, arraigar-se numa relação a partir dessa idéia é o próprio beijo que a morte oferece ao casamento. O que é frio, estável, contínuo, sem sobressaltos tampouco evoluções? Somente as coisas sem vida.
Relacionamentos, quaisquer que sejam, são como plantas, coisas vivas que necessitam de cuidados diários e que perecem se não tiverem rega, poda, olhar. O que precisamos, para, nesse ponto sofrer um pouco menos as desilusões, é de realizar um movimento consciente de “dizer sim à vida apesar de sua transitoriedade”, segundo Viktor Frankl.
DO PONTO DE VISTA BIOLÓGICO
A pesquisadora Suzana Herculano-Houzel, em seu livro O Cérebro Nosso de Cada Dia Descobertas da Neurociência Sobre a Vida Cotidiana, traz, entre outras, uma desmistificação interessante. Quem nunca ouviu a afirmação: “usamos apenas 10% do cérebro”?
A pesquisadora diz que não há nenhuma razão científica para supor que utilizamos apenas uma pequena porção do cérebro em todas as nossas operações. Quem gostava de pensar que tínhamos 90% de capacidade cognitiva, do ponto de vista biológico, como uma espécie de reserva a ser disponibilizada, pode se frustar à perspectiva da utilização dos 100% e perguntar: “se tudo é usado, como podemos desenvolver nossas habilidades?” Suzana diz: a capacidade de fazer novas combinações com seus elementos e modificar a eficiência das conexões - as sinapses - é impressionante. Para os neurocientistas, o fortalecimento e a estabilização dessas conexões são a base do aprendizado.
MAS...
Como o homem é um ser biopsicossocial cuja existência não se reduz à sua esfera biológica e, um ser, portanto, bem mais complexo do que seu emaranhado de veias, células, músculos e vísceras, devemos pensá-lo mais amplamente. Compreender, fortalecer e auxiliar na reorganização dessas conexões, que derivam em ou de comportamentos, tangenciam a esfera psíquica.
FRASE
“O tempo, como o espaço, tem seus desertos e suas solidões.” (Francis Bacon)
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