Geraldo Ferreira Freitas, 59, catador de papelão, e sua mulher, Alice Xavier de Souza Freitas, 57, lutam para cuidar de 13 outras pessoas. São nove netos, todos com idades entre 1 e 16 anos; uma filha adolescente com 17 anos e outra de 35, mais o genro. Em uma casa alugada de dois dormitórios, sala e cozinha, sem nenhum luxo no Jardim Paineiras, a família vive um drama. Está com a luz e água cortadas e sem ter o que comer.
A vida de Geraldo sempre foi muito difícil. Para sustentar todas as crianças, ele e a mulher catam papelões, garrafas pets e latinhas. Para ganhar pouco mais de R$ 230, é necessário um mês de trabalho. Com o dinheiro, pagam o aluguel do imóvel (R$ 200).
Para se alimentar, contam com a ajuda dos filhos do casal (que não moram na casa). “É pouco porque todos trabalham na roça e têm suas próprias famílias”, disse Alice.
A família ainda recebe ajuda do governo de R$ 60. Ao todo, são R$ 400 em média para as 15 pessoas. “Até estávamos nos virando, mas agora ficou difícil”.
A vida que já era dura piorou há 28 dias. Um acidente de trânsito na manhã do dia 2 de março deixou Geraldo imobilizado e sem poder trabalhar. No dia do acidente, ele e Alice saíram cedo de casa empurrando dois carrinhos à procura de papelão. Por volta de 10 horas, às margens da Rodovia Cândido Portinari, Geraldo Ferreira foi atropelado por uma motocicleta. “Eu entrei em desespero quando vi o Geraldo caído com o corpo cheio de sangue. A moto pegou meu marido em cheio. Quase morri”, disse Alice Xavier.
O catador de papelão ficou quatro dias internado na Santa Casa. Por causa do acidente, Freitas ficou com graves seqüelas. A mão esquerda não abre por completo e ele ainda sente muitas dores nas costas, devido à fratura de algumas costelas. “Eu choro. Minha mão não abre direito e não consigo andar muito por causa das dores”.
Depois que o marido foi atropelado, Alice sai sozinha pelas ruas do bairro em busca de material reciclável. “Não posso ir muito longe, pois tenho os netos para olhar. Meu marido não consegue empurrar mais o carrinho. É duro. Precisamos do dinheiro, mas não tenho como correr atrás”, disse.
Sem o trabalho de Geraldo, o rendimento da casa caiu muito. “Não temos como comprar comida e pagar água e luz. O que ganhamos foi para o aluguel, que é a única coisa em dia”, disse Alice que, até agora, conseguiu apenas R$ 30 para sustentar a família. Como o mês ainda não terminou, ela ainda esperam pela ajuda dos filhos e do governo, mas o total não deve ultrapassar R$ 200.
No início da tarde de ontem, a família havia se alimentado com pedaços de pão, leite (doado por vizinhos) e um pouco de café. “Hoje só tomei um pouco de café. Tenho muita pena de meus netos. Eles têm leite porque os vizinhos estão ajudando. Nunca pensei que um dia passaria por isso”, disse chorando, o catador.
Geraldo e Alice tiveram 13 filhos. Hoje apenas nove estão vivos. Alguns foram tentar trabalho em Campinas, outros são casados e moram no Jardim Aeroporto. Uma de suas filhas que mora com o casal é a mãe das 7 crianças que moram com Geraldo. Ela trabalha em dois turnos como faxineira, mas ganha pouco. O marido dela foi plantar café. “O que eles recebem não dá para muita coisa”.
Geraldo disse que ainda não conseguiu receber o seguro de trânsito que o governo paga a quem sofre acidentes. “Me falaram que tenho direito, mas ainda não procurei um advogado. Tenho o boletim de ocorrência do acidente, mas não recebi nada”.
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