A história do gasoduto da América do Sul tem desdobramentos geopolíticos ainda pouco percebidos pela opinião pública. É importante entender algumas peças, para se montar o quebra-cabeças.
O primeiro ponto são as características políticas dos diversos países produtores de gás. O mais complicado deles é a Bolívia.
Na época em que procedeu à nacionalização da exploração de petróleo e gás, por exemplo, Evo Morales estava pressionado de dois lados. De um, pelos grupos radicais que o alçaram ao poder e ameaçavam invadir o Palácio Presidencial se ele demorasse demais a tomar a decisão. Do outro, por um plebiscito que antecedeu sua eleição, dando 95% de aprovação para a nacionalização das reservas bolivianas. Elas seriam nacionalizadas independentemente de quem fosse o presidente eleito. A saída encontrada pelo País consistiu em aumentar as compras da Bolívia pagando mais pelo adicional, de forma a permitir um mix de preços mais favorável ao vizinho.
Para melhorar as receitas nacionais, Evo passou a negociar com o governo Néstor Kirchner, da Argentina, a venda de 25 milhões de metros cúbicos de gás. Após ser mantida pelo gás durante décadas, a Argentina viu suas reservas minguarem. Hoje em dia, tem reservas comprovadas para apenas mais 15 anos. Parte do gás da Bolívia seria repassado pela Argentina para o Chile, já que a diferença histórica entre os países impede a venda direta.
Finalmente, era intenção da Argentina vender para o Paraguai - um barril de pólvora que, quando explodir, deixará a Bolívia no chinelo. Aliás, parte da crise das “papeleras” com o Uruguai (a discussão em torno da instalação de fábrica de papel na fronteira entre os dois países) teve como pano de fundo a guerra do gás.
Do lado da Venezuela, havia a intenção do governo Hugo Chávez de impedir que o gás fosse transformado em commodity - em produto liquefeito. Como commodity, não haveria como estruturar um processo de industrialização, que poderia ser mais facilmente induzido por um gasoduto, já que as indústrias teriam que ser instaladas no seu entorno.
O primeiro lance foi dado por Chávez. Em cima de algumas idéias vagas, tratou de assinar um memorando de entendimento com Kirchner, deflagrando o processo. Lula assinou em seguida.
Onde entraria a estratégia brasileira? Numa ponta, aprovar uma perna do gasoduto passando pela Amazônia e indo até o Ceará.
Essa perna permitiria montar projetos de industrialização do Nordeste, além de reforçar a fronteira amazônica, permitindo a implantação de indústrias com acesso ao Pacífico.
Uma segunda perna seria montada para permitir ao País não apenas abastecer o centro-sul, como levar gás ao Paraguai e Uruguai através de Uruguaiana. Esse gasoduto seria criado num segundo tempo, e teria ligação com o primeiro, o da asa norte.
Há um ponto estratégico fundamental, porque nos próximos anos será inevitável uma enorme pressão do eleitorado paraguaio para que sejam revistos os acordos de Itaipu.
O desafio será conseguir financiamento para o projeto - cerca de US$ 25 bilhões. Pronto, ele gerará duas vezes mais energia que Itaipu. Nesse sentido, um eventual Banco do Sul poderá ser o agente para alavancar capitais.
VARIG 1
Na crise Varig, os maiores devedores eram empresas públicas, Banco do Brasil, Petrobrás e Infraero, com quase US$ 3 bilhões. Sem contar Receita Previdência. Uma das propostas era uma estatização temporária da empresa, que permitisse recuperá-la, garantir os créditos públicos e vendê-la por bom preço. Não se avançou por preconceito ideológico e receio de repetição de operações desastrosas de intervenção dos anos 80.
BID
Em setores do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) a criação do chamado Banco do Sul está sendo vista como uma reação do Brasil ao seu alijamento da diretoria do banco, hoje em dia controlada pelo colombiano Luiz Alberto Moreno, na verdade apadrinhado pelo governo George Bush. Hoje em dia, o BID tem menos recursos que o BNDES. A criação do Banco do Sul acabaria por reduzir ainda mais seu prestígio.
AMAZÔNIA 1
Em entrevista ao Projeto Brasil, Berta Becker, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) afirma que a Amazônia mudou, não é mais aquela que estava em fase de ocupação durante o Regime Militar. “A população quer se desenvolver, tem demandas de consumo, de escola, de lazer”, diz. Segundo a professora, é preciso pensar em novos modelos de proteção à floresta.
AMAZÔNIA 2
Becker propõe uma revolução científica e tecnológica para a Amazônia, a fim de colaborar com a integração continental e atender as demandas da população. A região já tem 20 milhões de habitantes, sendo que 70% deles moram em núcleos urbanos. Eu já chamo a Amazônia de “floresta urbanizada”, diz ela. Hoje, há demandas importantes, porque as pessoas têm mais acesso à informação, se organizaram movimentos sociais.
AMAZÔNIA 3
É necessário todo um planejamento intensivo para desenvolver a produção nas áreas florestais - sejam protegidas de uso direto, sejam outras áreas florestais que não são protegidas. É preciso conceber novas formas de produção, que permitam gerar trabalho e renda. Porque a floresta, com a fauna, a flora, os rios, é uma base fundamental para o desenvolvimento da região e do País, arremata a professora.
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