As previsões no BC


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Grosso modo, os preços na economia podem ser divididos em três grupos: os administrados (regulados por contratos, com indexadores definidos), comercializáveis (influenciados pelos preços internacionais e pelo dólar) e os não-comercializáveis. A rigor, as taxas de juros atuam apenas sobre o último grupo, obrigando a uma super-dosagem de juros para, através de um grupo (que responde à renda do consumidor), poder compensar a alta registrada nos dois outros. Nas projeções de inflação, a tarefa mais fácil é acertar as estimativas de preços administrados. São tarifas reajustadas por índices de preços passados. Desde que o sistema de metas inflacionárias foi instituído, os preços administrados se tornaram o principal álibi para taxas de juros elevadas. Isso porque a maior parte dos contratos de serviços públicos era corrigido pelo IGP (Índice Geral de Preços), índice fortemente influenciado pela taxa de câmbio. Com as maxidesvalorizações de 1999 e 2002 esses preços explodiram nos anos seguintes, levando o BC a aumentar substancialmente a taxa de juros. Agora, com a apreciação cambial, os preços administrados tendem a correr atrás da inflação (que é a média dos aumentos de preços). Agora, segundo matéria no jornal O Valor de quarta-feira passada, o BC passou a trabalhar com estimativas de preços administrados muito mais elevadas que as do próprio mercado. O Departamento de Economia do Bradesco, por exemplo, estava estimando uma queda de até 10% nas contas de luz. O mercado apostava em uma queda de 3,3% nos custos com energia elétrica. E o Departamento Econômico do BC passou a apostar em elevação de 3,3%. É muito diferença. Como se explica essa disparidade em um índice de tão fácil previsibilidade? Não se trata de um erro banal. Primeiro, afeta a credibilidade do BC, enfraquecendo seu papel como indutor de expectativas. É essa fragilidade analítica que tem levado a diretoria do banco a promover encontros reservados com analistas de mercado, pressionando aqueles que ousam enxergar um cenário mais róseo do que o que serve de álibi para as altas taxas de juros. Depois, porque implica na manutenção de taxa Selic elevada, com profundos desdobramentos sobre o custo da dívida pública, crescimento e emprego. Finalmente, porque desnuda a vulnerabilidade do País, entregue a um grupo de técnicos inexperientes. O ponto central é a quase impunidade para errar. O BC não presta contas ao Executivo - Lula tem medo pânico do tal do mercado -; não presta ao Legislativo. Suas decisões são aceitas com notável complacência pela mídia em geral. Não respondem a nenhuma Lei de Responsabilidade Fiscal, não respondem à Justiça nem ao Ministério Público. Sequer são confrontados com os dados do próprio mercado, cujas expectativas em relação à inflação deveriam servir de base para suas decisões. Não existe poder igual na República. E o preço desses super-poderes está à vista: uma dívida pública que não pára de crescer há doze anos; uma economia semi-estagnada; jovens se marginalizando ou, os que chegam a se formar, sem espaço de trabalho. Meu candidato a próximo presidente da República será o político que se comprometer, de forma responsável, a libertar o País desse jugo. DO BLOG Enviado pelo leitor Oliveira Passos: "Mando uma máxima do velho Simonsen. Este era ortodoxo, não era arrogante e tinha pensamento claro, objetivo e falseável (ou rigoroso no sentido Popperiano do termo, o que dá na mesma): `Em teoria econômica, o que não é óbvio é quase sempre besteira`. O País precisa de bons economistas e não de algebristas retóricos de segunda categoria". O perfil descrito se aplica aos cabeças-de-planilha. GLOBALIZAÇÃO 1 Ontem, na seção The Wall Street Journal, no Estadão, abre-se a discussão sobre as desvantagens da globalização comercial. Economistas influentes, como Alan Blinder - da Universidade de Princenton, ex-vice-presidente do FED e um defensor histórico do livre comércio -fez uma auto-crítica e sustentou que as desvantagens do livre comércio, no mundo globalizado, são muito maiores do que ele inicialmente supunha. GLOBALIZAÇÃO 2 Um dos pontos centrais da análise desse novo grupo de pensamento é a comparação entre o desempenho da América Latina, desde que ela cortou tarifas nos anos 80 e 90, com Ásia e sudeste asiático no mesmo período. Blinder não chega a defender o fechamento econômico, mas propõe gás nos programas de reciclagem de trabalhadores, de reestruturação de setores, de adaptação do sistema educacional a esses novos tempos. GLOBALIZAÇÃO 3 Blinder sustenta que a fuga de empregos para o exterior, com o avanço da fibra óptica, é o início de uma revolução parecida com a Revolução Industrial. Ainda mais agora que os produtos chineses começam a ganhar conteúdo tecnológico. Outros economistas notáveis, como Paul Samuelson - segundo a mesma matéria - têm criticado a "complacência acrítica dos economistas com a globalização". GLOBALIZAÇÃO 4 Do leitor Andre Araujo: "A opinião de Alan Blinder é emblemática pelo destaque que ele sempre teve no campo ortodoxo. Mas o atual início de um ciclo anti-globalização comercial tem tudo a ver com o avanço estratégico da China no mapa mundi. Tem muita gente nos EUA que já pensa que é hora de brecar a China. A globalização? Ora, os EUA pensam antes de tudo nos seus interesses e não em teorias econômicas".

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