Um novo reformismo


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A demanda por posicionamentos político-ideológicos mais nítidos e afirmativos, sem cair novamente no romantismo ou dogmatismo de outros tempos, parece estar gerando na sociedade uma demanda por definições mais integrais, como a que o filósofo Antônio Cícero tem pregado a propósito da necessidade de defesa de um "reformismo profundo e conseqüente" diante dos ataques reacionários à modernidade que ele detecta em alguns círculos intelectuais da sociedade brasileira. Tais ataques, aliados ao presentismo sentimentalista reinante e a posturas que ainda cultivam as polarizações duais abstratas e passadistas como critério de aferição política, estariam impregnando a conjuntura presente de um anti-progressismo jamais visto no país. Bem compreendido, o alerta de Antônio Cícero ao retorno a tempos mais exigentes soaria, como um apelo à reflexão sobre a nossa complexidade e também como um convite à elaboração e construção social de uma nova cultura política progressista. Enfatize-se, de saída, que a direita política, em termos mundiais, tem todas as simpatias para com os posicionamentos que Cícero tem definido como característicos dessa "ofensiva reacionária". Entretanto, discrepando um pouco do filósofo, não vejo possibilidade de o desafio proposto ser enfrentado a partir de um campo político-ideológico que despreze o que reconhecemos como esquerda ou, pelo menos, como uma parcela dela. E essa esquerda não está sozinha. Por seus temas, enfoques e posturas, ela mantém uma ponte com parcela significativa do pensamento contemporâneo que articula e assimila, em suas críticas, diagnósticos e projetos, os diversos setores intelectuais e políticos que têm suas origens ou ainda prezam sua identificação com um liberalismo moderno e renovador. Fora de discussão que as correntes de pensamento guardam fortes condições de contribuir com o desafio. Todavia e voltando ao nosso ponto , é indiscutível que há no Brasil uma esquerda que assumiu, desde o final da década de 1970, vinculação profunda com o tema da democracia e que se afastou das idéias dogmáticas que habitavam o ideário mais convencional da esquerda, tanto "esquerda tradicional" quanto da "nova esquerda". Talvez a maior expressão dessa mudança tenha sido a extraordinária recepção a artigo de Carlos Nelson Coutinho, "A democracia como valor universal", em 1979, com a formação de um entorno de militantes ativos dessa idéia, que, apesar de algumas sobrevivências leninistas (admitidas mais tarde pelo próprio autor), jogava por terra o entendimento de que a democracia não era mais do que uma tática a ser desprezada depois da sonhada conquista do poder. Aprofundando mais o argumento se poderia dizer que, apesar de alguns esforços nessa direção, o fim do tempo histórico das revoluções não produziu, entre nós, uma nova fórmula identitária que garantisse, simbólica e politicamente, nova expressão para a esquerda. Consensualmente reconhecíveis, os fatos do mundo e do Brasil no final do século XX são os responsáveis diretos pelo esgotamento dos dois mais potentes núcleos de identidade da esquerda brasileira, a saber, o núcleo bolchevique/soviético e o núcleo cubano/guerrilheiro. Surpreendentemente, a esquerda pós-1989, que ambicionava se configurar como um novo paradigma, fracassou mais rápido do que os modelos anteriores. Contudo, o cenário que deixou é ainda mais inconsistente: fundada no mercado, a esquerda representada pelo PT se expressa como um simulacro, nos quais realidade e ilusão se integram em erráticas metamorfoses. Está posto, portanto, o desafio de superar simultaneamente três dimensões históricas da esquerda brasileira, mas sem repetir a história. Essa não pode ser mais uma das oportunidades perdidas na construção da esquerda e da democracia brasileira. Dentre muitas razões porque o nosso débil processo de modernização e de democratização somente se consumou, em seus traços conhecidos, devido à não existência, entre nós, de uma esquerda radical democrática e reformista. Por essa razão, é preciso recapturar o tema das reformas por meio da elaboração de programa que concentre suas propostas nas demandas democratizadoras do mundo do trabalho e da vida. Baseado numa política aberta e em amplo diálogo com a sociedade, é preciso pensar as reformas como mudanças que envolvam a democratização do poder na sociedade brasileira. É preciso pensar as reformas para além do minimalismo e da lógica de mercado a que foram reduzidas na política brasileira recente. O país necessita forjar uma outra esquerda, com amplas bases sociais, legitimada como reformista e que fale ao coração de milhões. No Brasil, um partido das reformas deve defender a melhoria da vida das pessoas e, em função dessa perspectiva, deve privilegiar a elaboração e implementação de um programa que tenha as características e o sentido de um “reformismo desenvolvimentista”. Esse “novo reformismo” é enfim a base de uma nova cultura política para uma esquerda moderna e democrática. No plano da política, como reivindicou o filósofo, "um reformismo profundo e conseqüente". ALBERTO AGGIO é professor livre docente de História na Unesp/Franca

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