A tensão começou uma semana antes, quando a editora-chefe do Comércio, Joelma Ospedal, deu a notícia: “Você vai cobrir o jogo do Franca Basquete no Uruguai. Prepare-se!”. Acompanhar a partida não seria problema, faço isso há três anos, mas ir para o Uruguai? Imediatamente, comecei a pesquisar sobre a terra de Tabaré Ramón Vázquez Rosas (presidente local).
De início, o medo aumentou. Um bem-aventurado colega da imprensa de Montevidéu, Fernando Corchs, do jornal Últimas Notícias, não deu uma boa notícia: “A internet por aqui, à noite, costuma ter problemas”. E agora? E se cai a conexão? Como mandarei os textos e as fotos?
Decidi falar com meu companheiro de viagem, o narrador Carlos Zacarelli, que fez o favor de aumentar minha preocupação: “O ginásio fica a 45 minutos do hotel. Acho que não terá como mandar nada para Franca não”. Gelei.
Chegou o dia da viagem. Chegar em cima da hora para quê? Quatro horas antes do embarque, estávamos lá. Após muitas “pescadas” do Zacarelli, sentado sobre as malas, o guichê da companhia aérea foi aberto. Éramos os primeiros da fila.
A bem vestida atendente da companhia aérea nos chama. Documentos em riste, apresento-me sorridente: “Bom dia. Linda manhã para se voar não?”. “Hum, hum. Passagem” foi a seca resposta. Em seguida, fomos ao posto da Polícia Federal, declarar nossos bens. “Gostaríamos de...”. Fui cortado. “Preencha aqui”, disse a agente, que era a cara da finada Aracy de Almeida, empurrando um formulário.
No horário exato, embarcamos no avião. Eu até dormiria, não fosse o veterano narrador Jovassi Corrêa Dias, da rádio Imperador, roncando ao meu ouvido. Passadas duas horas e vinte e cinco minutos, descíamos no Aeroporto Internacional Carrascos, em Montevidéu.
O primeiro passo foi passar pela Polícia Aeroportuária, um tipo de PF uruguaia. Primeira pergunta (em espanhol) do agente: “O que faz no Uruguai?”. Tentei explicar (em português) que transmitiria um jogo de basquete. Notei que ele não entendeu nada. Fiz o gesto de um arremesso. “Franca, Olímpia, basquete”. Aí, sim, ele me liberou. “Boa sorte”, disse. Deveria ser torcedor do Malvin, rival do Olímpia.
Saindo do aeroporto, tudo mudou. Passamos a ser tratados como celebridades. Curiosamente, após cada gentileza, os uruguaios esticavam a mão, bem aberta, em nossa direção. Educados que somos, cumprimentamos a todos. Até que um carregador foi mais específico: “Propina, senhor”. Entendemos tudo e demos 20 pesos ao rapaz, que retrucou: “O senhor sabe que isso vale R$ 2? Mesmo assim, obrigado”, disse, enfezado.
Como bons glutões, aprendemos rápido a pedir comida nos restaurantes locais. Passamos bem no Uruguai, onde as refeições são fartas e relativamente baratas. O hotel ficava a dez minutos do ginásio e não a 45 (Zacarelli me paga). Havia táxis à vontade, dava para escolher. A internet funcionou perfeitamente.
A transmissão transcorreu sem problemas. Poucos minutos após o jogo, os textos já estavam na página, aqui em Franca. Havia passado o susto!
O retorno foi sossegado. Brinquei com o agente uruguaio, já que Franca venceu a partida. Ele sorriu (era mesmo torcedor do Malvin). Chegamos bem em Cumbica e, ao passar pelo posto da PF, acenei para a Aracy de Almeida, que até tentou sorrir.Trabalhar no que se gosta é sempre bom. No exterior, muito melhor. Que venham os hermanos!
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