A guardiã da Justiça


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Bacharel em Direito e delegada há 18 anos, Graciela diz que é um desafio ser ao mesmo tempo dona de casa, mãe, delegada e vereadora. Ela ainda afirmou que não sabe se continua na Câmara e que nunca pensou em se candidatar
Bacharel em Direito e delegada há 18 anos, Graciela diz que é um desafio ser ao mesmo tempo dona de casa, mãe, delegada e vereadora. Ela ainda afirmou que não sabe se continua na Câmara e que nunca pensou em se candidatar
<p>Natural de Pedregulho e morando em Franca desde os 16 anos, Graciela de Lourdes Davi Ambrósio, 43, ou Delegada Graciela, é a titular da Delegacia de Defesa da Mulher em Franca. Formada pela Faculdade de Direito e casada com o investigador Paulo Roberto Ambrósio, 46. Com dois filhos - um de onze anos e um de dez meses - ela concilia, há 18 anos, a vida particular e a profissional. Nem sempre é fácil, mas o segredo, segundo ela, é a divisão de papéis. “Não trago problemas de casa para a delegacia e nem as levo da delegacia para casa”, diz.</p> <p><br />Em entrevista exclusiva ao Comércio no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, ela comentou os desafios da carreira policial, da política e o convívio com mulheres que sofrem violência. “A agressão contra as mulheres só vai acabar quando elas próprias passarem a denunciar e principalmente darem continuidade às queixas. Senão de nada adianta aumentar a severidade das punições aos parceiros e o nosso papel de aconselhamento e organização social”.</p> <p><br />Confirma os principais pontos da entrevista.   </p> <p><strong>Comércio - Por que escolheu a carreira de delegada?<br />Graciela Ambrósio</strong> - Minha família é de policiais. Meus quatro irmãos são policiais, entre delegado, polícia civis e militares. Meu avô era policial. Isso acabou me influenciando um pouco. Mas eu sempre achei essa profissão muito bonita. Sou formada em Direito pela Faculdade de Direito de Franca e logo depois que terminei o curso prestei então um concurso para escrivã e passei. Fiquei nesta função durante três anos e depois em 1989 eu prestei outro concurso para Delegada de Polícia. Na época em que entrei para a Academia estavam começando a admitir mulheres nessa função. Foi até engraçado, pois quando prestei tinha vaga apenas para seis delegadas no Estado e na minha sala de aula eu era a única mulher. </p> <p><strong>Comércio - Como é seu dia-a-dia na Delegacia da Mulher ?<br />Graciela</strong> - O movimento por aqui é muito grande, principalmente neste tema de violência, onde as mulheres são agredidas dentro da própria casa. Então tenho que atender a todos os tipos de fatos que são relacionados à mulher. Quando elas chegam aqui, tentamos entender o caso, fazer orientação social e psicológica. Às vezes, tenho até mesmo que fazer agendamento para atender algumas mulheres, pois quando elas vêm denunciar querem falar comigo, e, na medida do possível eu procuro atender a todas. </p> <p><strong>Comércio - Nesses 18 anos como delegada, quais foram as histórias que mais a marcaram ? <br />Graciela</strong> - Nossa, foram tantas! Uma que me chocou muito foi a da menina de dez anos que foi estuprada pelo padrasto. Eu fiquei com esse caso na cabeça durante alguns dias. Outra denúncia, há alguns anos, que também me marcou muito foi a de uma jovem, não lembro a idade, que teve o corpo inteiro queimado com tocos de cigarro pelo parceiro. <br />Esta semana mesmo um marido cortou todo o cabelo da mulher, que era bem comprido, e espancou as suas partes íntimas. Mas a resolução desse caso eu achei um absurdo. Primeiro ela quis denunciar, depois de alguns dias ela chegou aqui e falou que tinha se entendido com ele e quis retirar a queixa. Ela disse ainda que teve um pouco de culpa e o parceiro tinha razão de ter feito aquilo. Isso me deixou muito chocada, pois com tanta conscientização e informação ainda existem mulheres que se dizem culpadas para encobrir o erro dos maridos. De nada adiantam leis rigorosas se não mudar o comportamento das próprias mulheres. </p> <p><strong>Comércio - A violência contra a mulher continua crescendo? Elas têm denunciado mais?<br />Graciela</strong> - Sim, o número de registros de denúncias tem aumentado, mas acho que não por causa do crescimento exagerado da violência, mas porque as mulheres estão denunciando mais. É claro que elas devem dar prosseguimento à denúncia e não retirar as queixas depois. Mas a violência sempre vai existir, o ideal é tentar evitar. </p> <p><strong>Comércio - Com a lei “Maria da Penha”, que não autoriza mais as mulheres a retirarem a queixa na delegacia, a senhora acha que elas estão ficando com receio de denunciar ?<br />Graciela</strong> - Não, acho que na hora de denunciar não porque, quando elas estão com raiva, elas denunciam mesmo. Essa lei de não poder retirar a queixa na delegacia é uma boa medida, pois, se os homens ficam sabendo que a queixa pode ser retirada, eles batem primeiro e depois convencem as mulheres a voltar e retirar. Agora quem sabe eles não pensem um pouco antes de cometer a violência. </p> <p><strong>Comércio - Em Franca, não existe uma casa de amparo às mulheres e seus filhos vítimas de violência. Isso contribui para a reincidência ?<br />Graciela</strong> - Acho que faz muita falta uma casa de apoio. Eu tenho tentado uma maneira para o acolhimento da mulher que sofre a violência, mas tem sido complicado. Até a Justiça resolver a divisão dos bens e ver onde elas vão ficar demora muito tempo. A casa de apoio daria aquele tempo para mulher resolver sua situação. Mas o abrigo Provisório que temos na cidade não seria ideal para abrigar essas mulheres e suas crianças. É preciso uma alternativa. </p> <p><strong>Comércio - Mas como estão as negociações para a construção dessa casa?<br />Graciela</strong> - Eu já fiz a Previsão no Orçamento do Município e cumpri a minha parte. Já temos o principal, que é a verba destinada para esta casa, basta agora a boa vontade do município, a vontade política e o interesse real pela casa da mulher. </p> <p><strong>Comércio - E por falar em política, você como única vereadora na Câmara Municipal. Como se sente ao representar a classe feminina?<br />Graciela</strong> - Eu me sinto muito honrada, é um papel difícil, pois sou a única mulher representante. Tem seu lado bom, mas eu acho que as mulheres devem entrar mais na vida política. São poucas na cidade. Em outras profissões, o número de mulheres tem crescido e até mesmo igualado o de homens, mas, na política, ainda somos minoria. Lá na Câmara eu já dei muitas idéias, mostrando projetos , discutindo e conseguindo respostas dos colegas e da população. </p> <p><strong>Comércio - Pretende continuar no cargo de vereadora? Já pensou em candidatar-se à Prefeitura?<br />Graciela</strong> - Pretendo continuar, não posso dizer muito sobre o meu amanhã. Se eu tiver fôlego e ânimo, quem sabe? Agora, candidatar-me à Prefeitura, não sei se teria chances não. Nem sei se teria condições ou até mesmo vontade. É muita responsabilidade, é outro espaço, governar é complicado. Nunca pensei nisto. Mas acho que as mulheres gostariam de ter uma representante no cargo máximo da cidade. </p> <p><strong>Comércio - Você consegue separar seu trabalho de sua vida pessoal ? Qual o segredo?<br />Graciela</strong> - A minha família me ajuda muito, tanto na função de delegada como na de vereadora. É um desafio, mas tenho uma vida normal, o cotidiano de uma mulher, mãe e filha. E é através dela que consigo lidar com os problemas das outras mulheres e que sinto as necessidades das outras. Posso dizer que consigo conciliar as duas funções, pois faço da minha vida familiar um exemplo aqui.</p> <p><br />Não levo os problemas da delegacia para casa e vice-versa. Lá em casa eu tenho os cuidados com a família, é um prazer ficar no meu lar, nem gosto de sair muito a não ser passeios junto com meus filhos e marido. O segredo é que, quando chego em casa, eu brinco, cuido da casa e esqueço dos problemas, assim me sinto valorizada e pego a estrutura para ser exemplo no trabalho e cuidar das outras mulheres que precisam de mim.</p>

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