Meninos de ouro


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Os jogadores da escolinha são vistos no campinho da Rua Mestre Inácio, na Vila Santa Terezinha, quinta-feira: treinos acontecem três dias por semana e os mais concorridos são aos sábados
Os jogadores da escolinha são vistos no campinho da Rua Mestre Inácio, na Vila Santa Terezinha, quinta-feira: treinos acontecem três dias por semana e os mais concorridos são aos sábados
Em um terreno antes baldio, na periferia de Franca, basta o som de um apito para reunir um batalhão de 130 crianças e adolescentes. Quatro, dez, vinte anos. Cada um que chega à escolinha de futebol do areião da Rua Mestre Inácio, na Vila Santa Terezinha, tem uma história, às vezes triste, apesar do pouco tempo de vida, mas recheada de muita esperança. Ninguém paga nada e o que se passa fora do campinho após o início do treino não importa. Jogadores, treinadores e pais que formam a escola Meninos de Ouro acreditam que no esporte está uma paixão e, mais importante, o aprendizado para um futuro melhor de seus integrantes. Criada há cinco anos por um taxista e sua mulher, uma doméstica, o local funciona melhor do que programas de atendimento social público. Lá, busca-se educar as crianças, tirá-las da violência das ruas e mostrar uma vida digna por meio do esporte. Anísio Reginaldo, 47, e Ivanilda Aparecida da Silva Andrade, 48, no começo, pensaram em formar um time para o próprio filho, então com 10 anos. A intenção: evitar que ele ficasse na rua. A falta de opção para lazer e projetos educacionais públicos motivaram os dois nesta empreitada. “Sabe como é, onde tem uma bola chega um, vem outro e reúne aquela molecada”, disse o taxista, que mora próximo ao campo de futebol e é ex-treinador da equipe. Onde hoje é o campo da escolinha, na época, não havia um terreno abandonado da Prefeitura. O mato tomava conta do local. “Limpei um pedaço pequeno só para montar um campinho e fiz as traves para eles treinarem”, lembra-se. A idéia floresceu e deu frutos. No primeiro campeonato que participaram no Jardim Vera Cruz, o time conquistou um segundo lugar. O título de vice é lembrado como se fosse de campeão. “Quando chegaram com o troféu falei que aqueles eram meus meninos de ouro. Foi quando decidimos tocar a escolinha e a batizamos”, afirmou Ivanilda. O objetivo era oferecer aos filhos de amigos e também desconhecidos o mesmo que queriam para os próprios, ou seja, evitar que tivessem contato com a rua em um bairro onde, tristemente, a criminalidade faz parte do dia-a-dia. Os anos se passaram, o campinho “tomou” toda a extensão do terreno e o próprio Anísio, com a ajuda de um e outro, capinou o mato. A Prefeitura e algumas empresas também ajudaram. A expansão era preciso para que de dez alunos, a escola crescesse para os atuais 130. “A gente ainda recebe inscrições todos os dias”, contou Ivanilda. SERVIÇO SOCIAL “O que a gente mais precisa aqui é dos garotos que dão trabalho. Lutamos por causa deles e para ajudá-los”. A fala vem do professor, e genro da família Andrade, Lucas Henrique Leite, 23. Esse é o lema da escolinha, que com rigidez e muita paciência, tenta ensinar a seus alunos um modo de vida diferente de muitos que vivem nos sete bairros atendidos, entre eles o local conhecido como “Puxa Faca”, entre vários outros. “Todo tipo de competição dá motivação e ensina regras. Isso é preciso para conseguir vencer e as crianças vão aprendendo com o passar dos dias”, explicou Lucas sobre como o trabalho rende resultados. E as histórias são muitas. Todos os treinadores trabalham como sapateiro e saem direto do serviço para o treino, todas as terças e quintas-feiras, das 18 às 20h30, e aos sábados, das 8 às 12 horas. Isaías Camilo, 21, ficou sabendo da escolinha após a namorada, Priscila da Silva, 17, contar que estava jogando futebol. “Quando a gente gosta é até melhor esse trabalho”, definiu ele sobre como é lidar com crianças de 9 e 10 anos. É com as adversidades que eles mais trabalham. O contato com as crianças sempre é envolvido por choques. “Sempre tem um com topete aqui. A gente vai diminuindo até estarem bem”, comentou outro treinador, Wilson Adriano de Oliveira, 37, que está com os times de 13 e 12 anos na semifinal de um campeonato no Jardim Vera Cruz. O sábado é especial para todos. Enquanto o leitor conhece a história dos meninos de ouro, eles estarão treinando no campinho da Rua Mestre Inácio, como fazem há cinco anos. Colaborou Mônica Carvalho

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