Na semana passada falamos, em linhas gerais, sobre a anorexia nervosa, um transtorno alimentar de origem psicossomática em que o indivíduo demonstra uma preocupação exagerada com o ganho de peso e, para evitá-lo, lança-se obsessivamente a restrições alimentares.
Também a exercícios físicos à exaustão e expedientes como vômito e diarréia induzida por ingestão de medicamentos. Essas pessoas possuem uma visão totalmente distorcida acerca do próprio corpo: ainda que muito abaixo do peso ideal, insistem em se enxergar como "gordos" e se impor auto-restrições.
De acordo com dados do Conselho Federal de Medicina, 90% dos anoréxicos são mulheres e, nos casos extremos, chegam à ingestão de 200 kcal por dia, quando, em pessoas adultas, o ideal é que esse número esteja entre 1,5 mil a 2 mil kcal por dia. As conseqüências que vêm sendo registradas são a morte por inanição, a incidência de suicídio ou desequilíbrio grave dos componentes sanguíneos.
Por ser desenvolvida principalmente por adolescentes e mulheres jovens e ser um mal insidioso, os pais devem estar atentos e, a qualquer sinal de alerta, procurar ajuda especializada.
Como identificar o anoréxico?
O conjunto de sintomas é bem claro. Quando mais cedo for diagnosticada a disfunção, maiores as chances de reversão do quadro. Portanto, os pais devem ficar atentos a: perda rápida e exagerada de peso sem que nenhum outro fator a justifique; a esquiva da convivência familiar, principalmente durante as refeições e ritualização das mesmas, do tipo comer escondido; preocupação intensa com o valor calórico dos alimentos; comportamentos e falas reticentes; interrupção ou intermitência do ciclo menstrual (amenorréia) e perda progressiva das características femininas (androginia); atividades física intensa e exagerada; depressão; sintomas da síndrome do pânico; comportamentos obsessivo-compulsivos; visão distorcida do próprio corpo (dismorfia); pele extremamente seca e coberta por lanugo. Esse é o conjunto de sintomas observáveis e alarmantes.
Para o anoréxico, no entanto, seu comportamento não parece em nada inadequado, daí sua freqüente recusa na busca de um especialista.
Tratamento
É consensual a idéia de que o tratamento da anorexia não é fácil, especialmente pelo fato do doente não se reconhecer doente. A abordagem deve ser multidisciplinar, compreendendo psiquiatra, nutricionista, psicólogo, psicopedagogo e endocrinologista, num trabalho intercomunicante que envolva a aplicação simultânea de várias estratégias.
Do ponto de vista psicológico, é fundamental considerar a estrutura familiar do doente. Os valores, os princípios, os legados transgeracionais podem, muitas vezes, contribuir para a manutenção dos transtornos alimentares. Mães, por exemplo, que supervalorizam a aparência, e que verbalizam diante da filha um desejo excessivo pelo corpo perfeito, transmitindo-lhe suas angústias e inseguranças, ou que põem defeito no físico da filha, ou ainda, que demonstram intolerância para com as diferenças, podem, sem querer, contribuir em muito para o desenvolvimento desse mal. Nesse sentido, e também em função da desestabilização que a anorexia provoca em todos os membros de uma família, muitas vezes, faz-se necessário o acompanhamento psicológico desse núcleo familiar.
É consenso entre profissionais da saúde que um psicólogo especializado na abordagem cognitivo-comportamental, para trabalhar a quebra dos condicionamentos seja indicado ao tratamento. Abordagens psicodinâmicas como a psicanálise também são interessantes, como uma forma do paciente entender os sintomas que apresenta, a gênese de sua aparição, suas vinculações afetivas, seus medos e os caminhos possíveis para uma existência mais saudável.
COMEÇAM A CRESCER
O primeiro dentinho do seu bebê apareceu e você estava lá. Quando ensaiava os passinhos para se pôr de pé, era a sua mão que o amparava. Seu filho cresceu e você continua, na melhor das intenções, querendo estar presente em todos os seus momentos mais importantes, não é? Mas o melhor é você ir se preparando: da adolescência de seu filho em diante, você será cada vez menos solicitada. De muitas coisas sobre a vida do seu filho, especialmente no que tange à sexualidade, suas primeiras experiências nesse sentido, você não vai saber.
RESPEITO À INTIMIDADE
E é interessante que não saiba mesmo, diz o psiquiatra francês Marcel Rufo, em seu livro Tudo o Que Você Jamais Deveria Saber sobre a Sexualidade de Seus Filhos, lançado no Brasil pela Editora Martins Fontes. Para ele,é preciso saber respeitar, desde o início, a intimidade de seu filho. Marcel Rufo defende a idéia, vigente desde Freud, de que com a nossa ajuda, a criança constrói a base de sua sexualidade, entendida num contexto mais amplo, mas chega uma hora, delineados os princípios e os limites, em que um recuo observador (de forma alguma um abandono), se faz necessário. Cabe aos pais aprender a lidar com o fato de que sua cria está crescendo e de que o respeito à sua intimidade é fundamental para um desenvolvimento saudável.
EU SOU EU, VOCÊ É VOCÊ
Clarice Lispector traduziu bem a idéia da diferenciação entre o eu e o outro, necessária ao bom funcionamento psíquico. Não são só as crianças que sofrem o processo de indiferenciação dos outros. Pais também o revivem, quando não os deixam iniciar nos primeiros passos da autonomia. Lispector escreveu: "Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um `isto`. Não vai parar, continua. Olha pra mim e me ama. Não: tu olhas pra ti e te amas. É o que está certo".
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