A nomeação do novo ministério virou uma novela de baixa audiência, escrita, dirigida e estrelada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Embora caciques da base governista varem noites em articulações para manter ou substituir ministros na Esplanada, ninguém sabe o que se passa na cabeça de Lula, nem seus verdadeiros objetivos com a reforma ministerial.
Teoricamente, o presidente gostaria de compor um governo melhor que o anterior, mais representativo e competente. Na prática, está trocando seis por meia dúzia. Aparentemente, está resolvendo o problema da governabilidade. A capacidade de governança – isto é, de realizar os projetos do governo – será testada na execução do Programa de Aceleração do Crescimento.
Qual é o conceito da reforma ministerial? A resposta foi dada pelo presidente Lula logo após a vitória eleitoral: montar um "governo de coalizão" do PT com o PMDB. Esse objetivo já foi alcançado, com a adesão maciça dos líderes do maior partido político no Congresso Nacional, com exceção de alguns líderes regionais, como os ex-governadores Jarbas Vasconcelos (PE) e Joaquim Roriz (DF). Além disso, Lula manteve o apoio dos partidos da base do primeiro mandato: à direita, o PR (ex-PL), o PP (ex-PDS) e o PTB; à esquerda, o PCdoB, o PSB e o PDT. Com essa composição, Lula articulou um governo de ampla coalizão, que derivou da esquerda para o centro, mas não pode ser caracterizado como um governo de direita. O efeito da ampliação da base governista já está se fazendo sentir no Congresso, onde Arlindo Chinaglia (PT-SP), ao presidir a Câmara, restabeleceu a hegemonia petista e serve de eixo para a montagem de um rolo compressor contra a oposição. Quem quiser que se iluda.
O método adotado para compor o governo de coalizão é o tradicional, não trouxe inovação à política brasileira. O presidente Lula definiu os espaços nos quais pretende alojar os partidos, o perfil dos ministros e as áreas que considera prioritárias. Não mexeu na equipe econômica, apesar de estimular a disputa entre monetaristas e desenvolvimentistas. Reservou as áreas de educação e de saúde para técnicos com ligações políticas com o PT e o PMDB, respectivamente, na esperança de melhorar o desempenho do governo com políticas sociais estruturantes. Tenta compartilhar o poder com os aliados, sem abrir mão do comando da equipe, nem perder o controle de sua sucessão. Para evitar decepções futuras, vaza os nomes dos possíveis ministros e observa as reações no Congresso, na mídia e na sociedade civil. Cozinha as nomeações em fogo brando.
Quando quer descartar um pretendente, acende a frigideira.
A reforma ministerial virou um novela sem graça por conta também do ambiente político. Lula continua com o prestígio eleitoral intacto. Os partidos que o apoiaram às vezes esperneiam, mas aceitam o comando do Planalto. Os possíveis candidatos da base governista à sucessão de 2010 – Ciro Gomes (PSB) e Marta Suplicy (PT), principalmente – já entenderam que não podem ir com sede ao pote. A oposição tenta sair da perplexidade e reencontrar seu rumo no Congresso. Seus governadores querem uma boa relação com o Palácio do Planalto. O problema de Lula é a herança maldita do primeiro mandato, que volta e meia tenta sair do armário, como revela a crise do "apagão aéreo".
LUIZ CARLOS AZEDO é jornalista
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