O crime não compensa


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A criminalidade expandiu-se de tal forma, tantos fazem do crime meio de vida, que o cidadão de bem se questiona: o crime compensa? Vejamos. Parte dos crimes contra o patrimônio, como furtos e roubos, decorre da exclusão a que estão relegadas certas pessoas, geralmente adolescentes e jovens sem família ou de famílias desestruturadas, que não conseguem integrar-se à sociedade, arrumar trabalho, ganhar a vida honestamente, e assim enveredam para a prática de tais delitos, para o uso de drogas. A pobreza não é pretexto para a prática de crimes. Claro que não. Mas não me refiro a pobres. Pobres têm um teto, mesmo que humilde; têm trabalho, ainda que com salários baixos; comida na mesa, ainda que sem fartura; televisor e outros bens de consumo, freqüentam escola pública, etc. Podem levar vida honesta e progredir sem eleger o crime como meio para isso. Refiro-me aos que estão abaixo da linha da pobreza, os párias, os indigentes, aqueles que vagam pelas ruas desde a infância. A prisão para eles é uma desgraça menor do que a liberdade, pois lá ao menos têm o que comer. A causa dos crimes neste caso é social, mas nem assim devem ser tolerados. Cabe à Polícia reprimí-los sem filosofar sobre o que leva a delinqüência. Cumpre ao governo criar um trabalho social, em conjunto com a sociedade, para erradicar a causa. Outros infringem a lei por motivos diversos. Há os que são pobres e ambiciosos, mas não querem se esforçar para ascender. Trabalhar de dia e estudar à noite? Nem pensar. Querem ganho alto e rápido. Partem para grandes roubos, extorsão mediante seqüestro, tráfico de drogas, etc. A marca principal de tais crimes é a morte prematura de seus agentes. A disputa por territórios, comando, poder, a rivalidade, etc. leva-os a matarem-se uns aos outros, em verdadeira autofagia e isso, quando não são mortos pela Polícia. A maioria morre jovem, antes dos trinta anos, nas ruas ou nos presídios. A prisão não é o inferno, mas chega perto. Outra classe de criminosos é a dos escravos do dinheiro, pessoas que têm tudo ou quase tudo em termos materiais, mas que não se contentam com isso. São os grandes empresários que sonegam tributos, políticos que subtraem quantias vultosas do Erário, agentes fiscais que cobram propina de sonegadores, juízes que vendem sentenças, policiais do alto escalão que se associam aos bandidos, etc. Com o emprego e a renda que possuía, o juiz Nicolau não precisava praticar crimes. Todavia, sem noção dos limites da necessidade humana, quis ganhar mais e mais, deixando de lado a probidade. Valeu a pena? A honestidade e as boas ações é que valorizam a pessoa, fazem-na sentir-se livre, não importa seu patrimônio material. A vida é efêmera, o vigor físico cede aos males próprios da idade. O dinheiro não impede isso. Então o peso da consciência fica insuportável. Assim, criminosos que envelhecem sem ser descobertos não ficam sem punição. Descobrem um dia que o mais valioso bem não é o dinheiro nem o que ele compra: é a paz de espírito. Em “A República” de Platão, Céfalo, já velho, diz a Sócrates: `depois que uma pessoa se aproxima daquela fase em que pensa que vai morrer, lhe acometem o temor e a preocupação por questões que antes não lhe vinham à mente. Com efeito, as histórias que se contam relativamente ao Hades (região subterrânea onde ficava a mansão dos mortos), de que se têm de expiar lá as injustiças aqui cometidas, histórias essas de que até então zombava, abalam agora a sua alma, com receio de que sejam verdadeiras. E essa pessoa - ou devido à debilidade da velhice, ou porque avista mais claramente as coisas do além, como quem está mais perto delas -, seja qual for a verdade, enche-se de desconfianças e temores, e começa a fazer os seus cálculos e a examinar se cometeu alguma injustiça para com alguém. Portanto, aquele que encontrar na sua vida muitas injustiças atemoriza-se, quer despertando muitas vezes no meio do sono, como as crianças, quer vivendo na expectativa da desgraça`. Para mim a expectativa é fundada; quem viveu à custa do sofrimento alheio não terá paz nem depois da morte; será um epírito perturbado vagando no infinito. O crime não compensa. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça

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