Depois de viver 39 anos viciada em bebidas alcóolicas (começou a beber aos 10 anos depois de ser violentada sexualmente), sofrer amnésia e convulsões provocadas pelo vício, perceber que tinha perdido os filhos e sua casa, a doméstica Romilda Barbosa da Silva, 50, procurou ajuda.
Natural de Goiana (PE), tinha passado por várias cidades até chegar a Franca para se internar na Amafem (Associação Mão Amiga de Amparo Feminino). Após nove meses de tratamento contra o alcoolismo, está recuperada e, com apoio de voluntários, poderá rever a família no Nordeste depois de 22 anos sem contato. "Tinha medo de não ver minha mãe com vida nunca mais.
Graças a Deus, não vou passar por essa dor. Vou voltar para minha família, conhecer meus sobrinhos. Estou muito, muito feliz", disse, com lágrimas nos olhos.
Romilda não se lembra com qual idade deixou Pernambuco; apenas que morou no Rio de Janeiro, onde teve um relacionamento e dois filhos: Júnior, 26, e Nathália, 24. Mas a relação acabou. Sem o marido, foi com as crianças para São Paulo tentar uma vida melhor. Cinco anos atrás, na capital, conheceu outro homem, que também era alcoólatra. Para viver com ele, abandonou os filhos. O casal virou andarilho e, de ônibus, percorria várias cidades, onde vivia pelas ruas e sustentava o vício com doações e venda de bijuterias. "Tudo que ganhávamos, gastávamos com pinga.
Vivíamos dopados."
Sua vida só ganhou outro rumo no ano passado, quando estavam em Alfenas (MG). Certo dia, depois de ingerir um litro de pinga, Romilda disse que sofreu seis convulsões. "Me acharam caída no meio da rua e me levaram para o hospital".
O susto fez ela querer mudar. "Quando melhorei, o pessoal do hospital perguntou para onde iria, cadê minha família... Não tive respostas... Cansei daquela vida. Não queria mais viver jogada, bêbada no meio da rua e resolvi ir para um abrigo".
Romilda foi acolhida pela comunidade católica Arco-Íris, espécie de abrigo provisório. De lá, foi encaminhada para a Amafem em Franca. "Cheguei super debilitada, sem forças até para comer", lembra.
Hoje, superadas as dificuldades com a recuperação, Romilda se prepara para recomeçar. Voluntários e a Amafem a ajudaram a localizar os parentes em Pernambuco e comprar a passagem de avião para Recife. "É um sonho que vou realizar."
A doméstica deve embarcar dia 4 de abril. No Nordeste, vai morar com a irmã Raquel, rever a mãe Maria, 80, e os outros três irmãos. "Minha esperança é encontrar meus filhos. Acho que eles mantêm contato com minha família em Pernambuco. Quero muito revê-los."
A história de Romilda é especial. Normalmente, as clínicas de recuperação de Franca atendem dependentes da cidade e região. É raro receberem pessoas de outros Estados e quando ocorre, dificilmente as pessoas conseguem retornar às origens.
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