Racionalizar para não faltar


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Hoje é o Dia Internacional da Água, porém com poucos motivos para festas. Não temos políticas globais de incentivo ao uso racional da água e as iniciativas existentes nesse sentido são pontuais e, em geral, temporárias. A sociedade brasileira pode contribuir para a melhoria das condições climáticas e à preservação ambiental do planeta, desde que governantes e cidadãos abandonem a postura passiva em relação a essas questões. Na questão da água potável disponível no planeta e as medidas visando à preservação e à recuperação das reservas, algumas ações extremamente simples, estão à disposição de cidadãos, administradores públicos e empresários. Existem em nosso país equipamentos e sistemas hidrossanitários de última geração, que permitem o uso racional da água, com economia de até 65% em relação ao consumo ocasionado por equipamentos obsoletos. Desde 2003, os fabricantes brasileiros estão obrigados a produzir válvulas de descarga e bacias sanitárias com caixas acopladas economizadoras, que consomem 6,8 litros por acionamento ao invés dos 12 ou até 20 litros dos equipamentos anteriores. Redutores e arejadores de vazão instalados em chuveiros e em torneiras, ajudam a diminuir o consumo de água. A economia, porém, não se restringe à redução da conta mensal. A redução do consumo em edifícios residenciais, comerciais, industriais, hospitalares, escolares, privados e públicos, permite diminuir o desmatamento decorrente da implantação de novos reservatórios e reduzir a necessidade de investimentos custosos. As economias poderiam ser empregadas pelas empresas de saneamento na coleta e tratamento de esgotos, por exemplo. Esse seria, portanto, o início de um ciclo virtuoso, econômica e ambientalmente, que só não foi adotado até agora pelo descaso dos governantes e pela inércia da sociedade. Infelizmente, as medidas visando à racionalização do consumo da água em nosso país são esporádicas e, portanto, têm eficácia apenas enquanto duram, em geral nos períodos relacionados a grandes secas, que diminuem a quantidade de água disponível nos reservatórios. Um exemplo dessa timidez de iniciativas governamentais foi a bonificação instituída pelo governo paulista, em 2005, um desconto de 20% no valor da conta mensal aos que conseguissem permanecer abaixo da média de consumo dos seis meses anteriores. A campanha foi abandonada assim que a seca acabou. Fica claro que a sociedade não desenvolve políticas permanentes de racionalização. É preciso lembrar que, das águas da Terra, apenas 2,5% são doces e, destas, mais de dois terços não estão disponíveis para consumo humano. O Brasil detém cerca de 12% da água doce disponível no mundo, mas mais da metade (54%) localiza-se na Amazônia e na bacia do rio Tocantins. Essa situação faz com que metrópoles dos estados do Sul/Sudeste e Nordeste brasileiros sejam obrigadas a buscar água em mananciais cada vez mais distantes, devido à poluição das águas por dejetos humanos e industriais e ao assoreamento de rios, lagos e represas, a um custo que aumenta exponencialmente e com danos ao meio ambiente. Cada nova represa e reservatório de água provoca desmatamento e, assim, contribui para diminuir o ciclo das chuvas e a quantidade de água doce disponível nessas regiões. O modelo permanente de racionalização envolve medidas governamentais de incentivo à economia e ao uso racional da água e foi adotado por cidades norte-americanas, como Nova York e Austin, no Texas, com grande sucesso. Os programas norte-americanos tiveram implantação por etapas, com programas de adesão voluntária de redução do consumo que, depois, ofereciam incentivos aos cidadãos para trocar, por exemplo, bacias sanitárias desperdiçadoras por outras, mais econômicas. Assim, Nova York conseguiu instalar mais de um milhão de bacias sanitárias economizadoras, entre 1994 e 1996. A prefeitura reembolsava as despesas dos moradores e empresários locais com a troca de bacias. A iniciativa poupou 216 milhões de litros de água por dia e o investimento se pagou em quatro meses. Um programa de uso racional da água é mais duradouro do que campanhas publicitárias ou programas eventuais. CARLOS LEMOS DA COSTA é engenheiro

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