A Tríplice Aliança - Petrobrás, Ultra e Brasken - para a compra da Petróleo Ipiranga tem, por trás de cada aliado, motivações estratégicas diversas. A operação que preservou em mãos brasileiras uma empresa de capital nacional, sem precisar recorrer ao BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) foi facilitada pelo fato da Ipiranga estar sendo bem administrada. Seus problemas eram decorrência exclusiva de conflito entre acionistas.
O grupo Ultra ficou com a parte da distribuição, o correspondente a 15% do mercado brasileiro. O pagamento será feito com emissão de ações do grupo, sem mexer no seu caixa. O faturamento quintuplicará e a geração de caixa duplicará, preservando os recursos acumulados até agora.
Os ganhos para o grupo Ultra são da seguinte ordem.
Haverá sinergia com a distribuição de gás na parte administrativa, na logística, tanto nas bases quanto na programação, na tecnologia de distribuição e no relacionamento com revendedores.
Além disso, o Ultra é uma das empresas que aprenderam a trabalhar com choques de gestão, programas de qualidade e ganhos de eficiência. Embora a Ipiranga estivesse sendo bem administrada, percebeu-se possibilidades de bons ganhos adicionais com melhoria de processos.
A grande aposta do grupo é que a distribuição de combustíveis será fundamentalmente modificada com a entrada do álcool na matriz energética. Na prática, quebra-se o monopólio da Petrobrás do refino de álcool.
Além de passar a dominar 15% da distribuição, o grupo Ultra vem trabalhando na alcoolquímica, no desenvolvimento de novos processos, inclusive na hidrólise. Todos os processos petroquímicos podem ser refeitos a partir do álcool. Até a Segunda Guerra, a química era de fermentação, com o álcool desempenhando papel relevante. O petróleo a dois dólares brecou todo o desenvolvimento alternativo. No Brasil, até os anos 70, produzia-se álcool a partir do eteno, tanto pela Salgema quanto pela Union Carbide. Mas o álcool era subsidiado.
Agora, com aperfeiçoamento tecnológico, redução dos custos, nova relação de custo álcool/petróleo, esses processos estão sendo desengavetados. Os pesquisadores estão limpando as gavetas e retirando velhos projetos adormecidos.
A nova empresa terá novo fôlego econômico-financeiro. A aquisição quintuplicará o faturamento do grupo, dobrará a geração de caixa e preservará os recursos que têm para investimento, mantendo o endividamento zerado.
No ano passado o grupo tentou sua primeira aquisição internacional, a Uniquema, divisão da ICI, com fábricas em quatorze países e um departamento avançado de pesquisa. Chegou a dar um lance de US$ 900 milhões, mas perdeu para um concorrente inglês que ofereceu US$ 1 bilhão. Com o aumento do tamanho e da geração de caixa, o Ultra já tem em mira outras compras externas.
O último ganho do grupo é a possibilidade de entrar em um setor que tem um "hedge" natural contra eventuais futuras oscilações no câmbio. Cerca de 40% de seus ativos estarão defendidos contra vulnerabilidades futuras da política econômica brasileira.
ETANOL E BID
Anteontem, na Assembléia de Governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o presidente Luis Alberto Moreno anunciou a idéia do Brasil e dos EUA de criar, este ano, um fundo de investimento para o financiar projetos de biocombustíveis. A idéia será também consolidar o mercado de etanol, para torná-lo o mais rapidamente possível uma commodity - isto é, um produto padronizado mundialmente.
DEFESA 1
A idéia de Lula, de reestruturar o Ministério da Defesa, a fim de que ele possa articular uma política industrial para o setor, pode ser relevante. Hoje em dia existem institutos de pesquisa e fábricas de equipamentos espalhadas pelas três Armas. Uma coordenação tecnológica aumentaria sua eficácia. Só que não resolveria o principal problema da pesquisa militar: a falta de recursos orçamentários.
DEFESA 2
Enquanto o governo faz planos para o futuro, o presente continua a descoberto. A crise dos aeroportos demonstra, de maneira ampla, a incapacidade do governo Lula de resolver problemas críticos. Apesar da respeitabilidade, o respeito ao Ministro Valdir Pires não pode ser superior ao respeito pelos direitos dos usuários de aviões.
ZONA FRANCA
A decisão do governo paulista, de aumentar de 12% para 18% a alíquota do ICMS para produtos da Zona Franca comercializados em São Paulo coloca em cheque o modelo do Pólo Industrial de Manaus. A Samsung está planejando a transferência das instalações para São Paulo. A Nokia chegou a trazer seu presidente mundial, Olli-Pekka Kallasvuo, para uma reunião com Lula. Trata-se de uma sinuca de bico.
LA NAVE VA
O dólar caiu mais uma vez, fechando a R$ 2,077, menor nível desde maio de 2006, quando o dólar fechou a R$ 2,061. O mercado continua apostando que o dólar buscará R$ 1,90, se o Banco Central não acelerar a queda dos juros. Grandes bancos só deixarão de trazer dólares para o país se a taxa Selic cair para 9% ou o câmbio para R$ 1,80. Até lá, haverá enchente e apreciação do câmbio.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.