Mãos que aliviam


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Maria Pessoni faz curativo no pé esquerdo de Ortiz Leite
Maria Pessoni faz curativo no pé esquerdo de Ortiz Leite
O dia começa às 5 horas. Com ajuda das filhas, ela preenche as fichas de atendimento dos pacientes. A tarefa termina em uma hora. Depois veste o uniforme branco e confere a mala e material para curativos (luvas, gazes, faixas, fita crepe, faixas, espátulas, soro e anti-sépticos. Tudo certo. É esperar pela chegada do motorista da ambulância, Luís Antônio de Almeida, 63, parceiro dela há sete anos. Ele estaciona a kombi na porta da casa, no Leporace, às 7 horas. Começa aí a peregrinação de ambos pela cidade para cuidar de pessoas com ferimentos no corpo. A rotina é vivida por Maria Pessoni, 58, há 18 anos. Auxiliar de enfermagem, ela é a única profissional do programa Curativo Domiciliar, desde sua implantação no início da década de 90. O projeto foi criado por um enfermeiro-chefe do pronto-socorro (do qual ela não se lembra o nome). Para aliviar o sofrimento de pacientes que precisavam de curativos e não tinham como se locomover, ele decidiu implantar o atendimento domiciliar. Antes, a ambulância buscava os pacientes em casa e, muitas vezes, ao chegarem ao hospital, tinham de esperar horas até serem atendidos. O enfermeiro decidiu que seriam cuidados em suas residências. Maria foi escalada pela equipe e nunca mais deixou de cumprir o programa. Ela reconhece a importância da decisão. "Receber os cuidados em casa é bem melhor, pois não atrapalha o repouso deles. É mais seguro e confortável", disse Maria. Têm prioridade as pessoas com dificuldades de se locomover e idosas. A auxiliar de enfermagem não tem idéia de quantos usuários ajudou ao longo de seus 18 anos de serviços prestados. "Não sei. Mas foram milhares. Chego a fazer 500 curativos por mês." Hoje, Maria, que é tida como "anjo da guarda" pelos usuários, atende 56 pacientes entre 28 e 90 anos. Ela divide o grupo e visita mais de 20 deles por dia. "Passo na casa de cada um três vezes por semana para cuidar de feridas, úlceras e outros ferimentos." O acompanhamento pode durar meses ou anos até os pacientes receberem alta. Maria segue orientação médica para fazer os curativos. O volume de trabalho pode ser medido pelos materiais gastos. São 70 luvas, 700 gazes e 50 chumaços de algodão por manhã. A enfermeira trabalha durante a semana, das 7 às 13 horas. "Tenho dez minutos para fazer cada curativo, mas, às vezes, atrasa. Não deixo ninguém sem atendimento, mesmo que, para isso, precise atrasar meu horário de saída." O salário para tanta dedicação é R$ 1 mil por mês. "Não ganho muito, mas faço tudo com amor. Para mim, é supergratificante saber que ajudo a aliviar a dor e sofrimento das pessoas. Isso não tem preço", disse. A história de Ortiz Leite, 82, mostra a diferença que o programa Curativo Domiciliar pode fazer. Moradora no Jardim América, tem úlcera (feridas) nos pés e recebe a enfermeira para os curativos há mais de cinco anos. "Ela é uma bênção na minha vida". Solteira, Ortiz vivia com outros parentes, mas eles morreram e, há dez anos, a senhora ficou sozinha. Sem condições de tratar a doença e procurar um posto de saúde para fazer higienização correta dos machucados, chegou a ter bichos nas pernas. "Quando ela (Maria) chegou aqui, meus pés estavam podres. Agora que a enfermeira começou a me ajudar, está tudo melhor", disse Ortiz. [FOTO2] Todos os usuários são encaminhados para o Curativo Domiciliar após atendimento médico. PAIXÃO Auxiliar de enfermagem há 27 anos, Maria Pessoni prefere o trabalho nas residências aos quartos de hospitais. "A relação que mantenho com os pacientes e familiares é muito boa. É um serviço que sempre me ensina. Aprendo todos os dias." Em alguns casos, criam-se vínculos. Maria não se esquece de um dia vivido no serviço há cerca de oito anos. Ela cuidava de um senhor de 78 anos com câncer no nariz, no Aeroporto IV. O usuário vivia praticamente sozinho, pois os familiares trabalhavam para poder sustentar a casa. Certo dia, chegou à residência e o encontrou morto no sofá. "Foi muito triste. Fiquei um pouco abalada. Ele estava deitadinho, do jeito que eu tinha deixado no dia anterior. É claro que sofro com as perdas, mas, nessas horas, tenho de me apegar à importância desse trabalho. Contribuir para melhorar o bem-estar e saúde das pessoas é muito bom", disse ela, que não pretende largar esse trabalho tão cedo. "Sou muito feliz com o que faço".

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