O físico e escritor norte-americano Alan Lightman escreveu um pequeno livro de contos que deveria fazer parte da biblioteca de todos os políticos: "Os Sonhos de Einstein". São 30 estórias brevíssimas, nas quais explora as possibilidades de cada leitor imaginar o tempo e a existência em situações do cotidiano, todas atribuídas à fabulosa imaginação do jovem Alberto Einstein, o grande físico judeu-alemão autor da Teoria da Relatividade.
O tempo absoluto (Sir Isaac Newton) é aquele que a gente vê por toda parte, nos relógios de parede, nas salas de embarque dos aeroportos e nos celulares. O tempo é dividido em segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Esse tempo é tangível e marcha em perfeita sucessão. "Uma vasta plataforma de tempo, que se estende por todo o universo, estabelece a lei do tempo igualmente para todos. Neste mundo, um segundo é um segundo. O tempo avança com exuberante regularidade, com exatamente a mesma velocidade em todos os cantos do espaço. O tempo é soberano infinito. O tempo é absoluto", explica Lightman.
Uma dos contos se passa no parque de Berna, Suíça. No final da tarde, um jovem espera a namorada, um velho brinca com a neta e o pipoqueiro arruma a carrocinha. O tempo será igual para os três personagens? É claro que não. Para o avô dedicado, as horas com a neta passam rápido demais. O jovem, porém, não esconde a ansiedade por causa do atraso da namorada. Já o pipoqueiro, na sua rotina, apenas aproveita o tempo disponível para encerrar seu trabalho.
É mais ou menos o que aconteceu em Brasília, por causa da reforma ministerial. Os ministros que já sabem que vão deixar o cargo estão com as gavetas esvaziadas. Os que ficarão mantêm a rotina. Os políticos não escondem a ansiedade provocada pela reforma ministerial. E o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se comporta como aquele pipoqueiro de Einstein, que conhece seu trabalho. No dia-a-dia do Palácio do Planalto, escondeu o jogo para mexer o mínimo possível no governo.
Conseguiu sufocar a movimentação dos aliados, que pretendiam fortalecer projetos presidenciais precoces: Ciro Gomes (PSB), Marta Suplicy (PT) e Nelson Jobim (PMDB). Incorporou onze partidos ao governo, com destaque para o PMDB, sem abrir mão da escolha dos ministros, principalmente na Saúde e Educação.
Renovou o comando das Forças Armadas sem mudar o desgastado ministro da Defesa. Ao administrar o tempo, fez uma reforma ministerial homeopática. Mostrou que o tempo na política pode ser relativo. Menos o tempo do mandato presidencial, o recurso mais escasso do governo Lula. Inclusive para implantação do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).
LUIZ CARLOS AZEDO é jornalista
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