Esse transtorno tem bases culturalmente condicionadas e pode matar. Tem sido notável o número de jovens transfiguradas pela magreza ou vítimas fatais de transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia.
Hoje falaremos da anorexia nervosa, que é a recusa em manter um peso corporal na faixa normal mínima, em função de um temor intenso de ganhar peso e de uma percepção distorcida do esquema corporal. Embora sempre tenha sido relatada como um transtorno muito mais comum em mulheres jovens ou adolescentes, sua ocorrência vem crescendo noutros grupos etários e entre homens e meninos.
Matéria recentemente publicada no jornal Folha de S.Paulo informa que representantes do sexo masculino ocupam atualmente 60% dos leitos da enfermaria do Ambulim (Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares) do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Pesquisas atuais no assunto dão conta de que há uma associação entre anorexia e os transtornos do humor, embora esses não possam ser apontados exclusivamente como a causa e sim, como um elemento dentro de um conjunto de fatores, principalmente, os fenômenos culturais condicionantes.
No imaginário contemporâneo, incensado pelos milagres prometidos pelo fitness em academias e pela medicina estética, o corpo figura como matéria moldável, passível das mais variadas intervenções e transformações. A moda, por razões óbvias - muito mais barato e fácil produzir manequins 32 e 34 em larga escala do que o 40 apropriado ao biotipo nacional -, inculca via estilistas e desfiles glamourosos, a idéia de que o corpo ideal é aquele magérrimo, de ossos salientes. Vemos então, a supervalorização da silhueta magra como uma exigência da indústria da moda, do fitness, da estética, farmacológica, ditando novos padrões de comportamento, elevados pelas publicações da moda, sempre subservientes às leis de mercado, candidamente seguidas por jovens em formação. No universo masculino isto também ocorre: os modelos escolhidos pelos estilistas de grifes famosas cada vez mais preferem rapazes de aparência andrógina e bem magra.
Na internet, pipocam blogs pró-anorexia, com campeonatos de perda de peso e provas para definir a recordista em número de vômitos provocados por dia. Temos assim toda uma configuração ambiental a cultuar a magreza e vincular a ela a idéia de sucesso, beleza e autocontrole.
Para alcançar o ponto que entendem como ideal, essas pessoas se impõem exercícios físicos exagerados, vômitos e diarréia induzida por laxantes, o abuso de medicamentos diuréticos e para emagrecer, dietas absurdamente restritas que comumente levam à desnutrição, acompanhada de modificações endócrinas e metabólicas e de perturbações das funções fisiológicas.
Impressiona o desprezo que demonstram por pessoas com IMC comuns; a obesidade parece ser, para esse grupo, o último grau de indignidade humana, interpretada por fraqueza. Cria-se então uma compulsão inversa, já que determinada não pelo excesso, e sim pela falta, mas, ainda assim, no exato mecanismo das compulsões por drogas, sexo, comida, etc.
Anoréxicos moldam sua vida na negação de qualquer prazer associado à alimentação, a aversão à necessidade de nutrição - outra vez, em suas fantasias, sinônimo de fraqueza a que o corpo humano está sujeito. Escravizam dessa forma o seu corpo, como se o punissem, inclusive. Um traço de personalidade recorrente em quem desenvolve a anorexia nervosa, muito facilmente encontrável em qualquer adolescente, aliás, é a sensibilidade excessiva ao olhar do outro. Em sua obstinação por ostentar o físico que julga perfeito, submete-se a uma disciplina espartana, senão martírio, como forma de demonstrar força e perseverança em seus propósitos, mascarando a fragilidade que lhes percorre por dentro.
Assim, anorexia tem a ver também, na medida em que hostiliza a imperfeição e a fraqueza humanas, inerentes à nossa condição, com relações muito rudimentares de poder. Fazer da magreza (e do dolorido percurso para alcançá-la) um modo de vida é uma maneira de afirmar seu poder e tentar minimizar suas próprias angústias.
Novamente, como nas compulsões, pode refletir o direcionamento de seus impulsos agressivos a si mesmas, em autodestruição que o doente não reconhece em si nem mesmo diante do espelho.
Não é demais repetir que a anorexia nervosa é um transtorno grave que pode levar à morte, mas que tem tratamento. Na próxima semana falaremos das terapêuticas disponíveis.
Em tempo
Profissionais e interessados no tema podem saber mais a respeito dos transtornos alimentares no GRATA (Grupo de Assistência aos Transtornos Alimentares). Com 24 anos de existência, esse programa do Ambulatório de Nutrologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto é um serviço de abordagem interdisciplinar especializado no atendimento gratuito de indivíduos portadores de transtornos alimentares e no aperfeiçoamento dos profissionais envolvidos com a área. Informações pelo telefone (16) 3602-1000.
O INOMINÁVEL
O inominável, aquilo que não tem nome, que não se diz, sequer se imagina possível, é o que temos visto estampado com uma freqüência assustadora nos jornais.O inominável é a violência covarde infligida a crianças, indivíduos indefesos em em formação. Mães coniventes com estupros, com surras à morte de crianças, como foi recentemente noticiado o assassinato pelo padrasto de um menino de 3 anos, quase um bebê ainda, no Rio de Janeiro. O que falar de uma menina de 12 anos cuja mãe praticamente a entrega como mercadoria ao namorado para passar com ele uma noite de horrores? E do caso no Sul, do estrangulamento e estupro de uma criança de 1,5 ano, sob a justificativa, do agressor, de que estava bêbado?
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