Com medo, mas enfrentando...


| Tempo de leitura: 4 min
Esta coluna é uma celebração. Quem me conhece sabe que sou ativista social. Ainda assim, inaugurar uma prosa semanal no Comércio metia medo. O medo, no entanto, gera forças sobre-humanas e, caso prático, não se pode esquecer aqui a mãe Márcia Jerônima, que mesmo sem saber nadar, atirou-se em poço onde um de seus filhos estava para se afogar, com seu momento materno-instintivo registrado pela câmara do repórter fotográfico deste jornal, Tiago Brandão, com repercussão em todo o mundo. Pois bem. Medo controlado, passei a pensar nesta coluna sobre Ética e Cidadania. As coisas não acontecem por acaso. Este é exatamente o mês em que se discute com mais ênfase, questões de violência contra as mulheres e se pensa na criação de efetivas políticas públicas quanto ao tema. Quero fazer deste espaço uma janela aberta para quem se julgar preterido ou for desrespeitado. Comentaremos aqui também sobre ações, projetos, programas, causas e situações capazes de fazer diferença na vida das pessoas, pois existem muitos, anonimamente preocupados, em tornarem melhor este mundo que teima em ser pior quando tem tudo para ser melhor. Que por esta janela entre o sol que tira o mofo: os direitos humanos parecem sim, mofados e esclerosados. O Brasil, a exemplo, é o campeão mundial da violência contra mulheres, como atesta estatística fornecida pela ONU. Aqui, neste campo do direito humano, ações têm que ser paridas a fórceps. A Lei Maria da Penha (número 340, de 7 de agosto de 2006) é um exemplo de conquista histórica de direito da mulher. A biofarmacêutica Maria da Penha Maia buscou, por 20 anos, condenação para seu marido, o professor universitário Marco Antônio Herredia, que havia tentado matá-la duas vezes. Na primeira, atirou e ela ficou paraplégica. Na segunda, tentou eletrocutá-la. Na ocasião, ela tinha filhos com 6 e 2 anos. A investigação começou em 1983 mas a denúncia só chegou ao Ministério Público em setembro de 1984. Oito longos anos se passaram até que seu marido foi condenado a oito anos de prisão, ainda assim, utilizando recursos jurídicos, conseguiu livrar-se do cumprimento da pena. A Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), tomou conhecimento do caso e acatou pela primeira vez, denúncia de um crime de violência doméstica. O marido foi preso novamente em outubro de 2002 e cumpriu apenas dois anos de prisão. Está, hoje, em liberdade. A Lei foi sancionada pelo presidente Lula que se dirigiu a Maria da Penha Maia como “mulher que renasceu das cinzas para se transformar em um símbolo da luta contra a violência doméstica no nosso País”. Este espaço é precioso para mim e para você que lê. Se o Procon decide casos de direitos de consumidores, onde está o órgão que pode fazer o mesmo por quem se julgue colocado de lado, discriminado? Não com portas, paredes ou janelas, mas, modestamente, está aqui. Causas que chegarem ao nosso conhecimento (e o e-mail registrado ao cabeçalho deve servir para isso mesmo), serão aqui registradas junto a falas e quem sabe, providências de quem de direito. A rapidez com que compreendermos o que este espaço significa, multiplicado pelo poder do Comércio, mídia hegemônica mais antiga e mais importante desta cidade, será o tsunami que precisávamos inaugurar. SEM PAPAS NA LÍNGUA “Ele bate, mas ruim com ele, pior sem ele” foi o chavão mais citado por mulheres que são regularmente agredidas por seus companheiros. O IBOPE é que confirma. Agüentar agressões em nome da estabilidade familiar é o fim do mundo. É preciso dar a quem agride, o remédio certo: a prisão. Rejeitar - não gosto desta palavra porque ela exprime discriminação, mas serve neste momento - quem bate é essencial. HAJA CORAÇÃO Depoimentos ou denúncias? Mande. Certamente poderão encorajar quem ainda não tem decisão formada, a fazer o mesmo. Vamos combinar. A carta - ou e-mail - deverão conter número de RG, CPF, endereço e telefone para que possamos checar se o assunto é verdadeiro. Com causas assim, não dá para brincar. Em tempo: o sigilo de quem denunciar será preservado. Não sei se você sabe, mas entre cada quatro mulheres, uma enfrenta violência doméstica. E de cada dez mulheres que sofreram violência sexual, seis foram violentadas dentro da própria família... A CARA DA EXCLUSÃO A exclusão social tem nome e tem sempre endereço. Não é um número de cadastro e muito menos número de prontuário em unidades de saúde e hospitais. Ela se encontra nos lixões, na prostituição infanto-juvenil, na delinqüência, na violência, enfim. Ela mora na lama que a sociedade lhes reservou. Conhecer estas coisas e se enturmar nos grupos que lutam contra isso, anonimamente, é possível. Basta olhar para o lado. Se precisar, dá para compor ações isoladas. Você é quem sabe. O PIOR CEGO OU O PIOR SURDO O Poder não aprendeu a enxergar nos humildes o rosto do Mestre de todas as Éticas. ‘Aquele que incluiu os deficientes, os pobres, os cegos, os coxos e lhes dizia ‘ levanta-te e anda’, praticou a verdadeira inclusão. Curava-os de suas deficiências e os reintegrava à sociedade. A ordem do Mestre de todas as Éticas (e de toda a Cidadania) para todos os que se encontram na situação de paralíticos - ou “paralisados” -, de cegos, de coxos, de mãos amarradas ou atrofiadas sempre foi “levanta-te e anda”. Os piores cegos e os piores surdos ainda não entenderam a mensagem, mas sempre é tempo...

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários