O chão é de terra batida, as paredes são pretas. Não há portas, tampouco janelas. Para ter acesso à casa, é preciso escalar um barranco. A única fonte de iluminação é o poste da rua. No local, sacolas plásticas fazem as vezes de armário com roupas e cobertores dentro, o chão de barro substitui a cama para dois colchões. Garrafas pets, um par de botinas e uma fornalha ocupam parte do espaço. O endereço é a casa de José Faustino, que se instalou embaixo do viaduto da Rua Voluntários da Franca há quatro anos. Aos 74 anos, arrisca-se para chegar à residência. Num dia de chuva, chegou a escorregar na terra molhada do barranco e machucou o rosto, mas parece não se preocupar com o risco. “Sou velho, mas não caio à toa não.”
O morador nasceu em Rifaina, mas disse que foi criado em Franca, embora não lembre quando se mudou para a cidade. Antes de transformar a ponte em casa, não vivia mais confortável. A residência era próxima à atual: as escadas debaixo do viaduto da Rua General Telles. “Não tenho casa. O jeito é ficar por aqui mesmo”, disse.
José Faustino não gosta de contar detalhes de sua vida e se confunde algumas vezes enquanto fala, mas é brincalhão e gosta de dar boas risadas. Ele costuma acenar para todos os carros e caminhões que passam pela avenida. “Ou, ou. Epa”, diz, abanando a mão para os motoristas. “Sou muito conhecido. É só falar do ‘Cabeleira’, aquele nego que mora embaixo da ponte, que todos sabem que sou eu.”
Além das brincadeiras com os veículos, José Faustino gosta de andar pela cidade. “Ando o dia inteiro mesmo.” Quando está em casa, ouve rádio, cozinha arroz num fogão improvisado no chão e prepara a água para tomar banho. Ele utiliza uma vasilha plástica que enche de água numa bica embaixo do barranco onde dorme.
Depois transfere a água para garrafas plásticas, que deixa expostas ao sol para esquentar e tomar banho depois. “Uso umas seis garrafas por vez. Coloco uma bermuda e me lavo no meio do mato. Ninguém vê.” Às vezes, prefere tomar banho no banheiro da loja de um conhecido, que fica na Estação. Como sanitário, utiliza um pote de sorvete se for xixi. Na outra opção, recorre ao mato.
José trabalhou como empacotador de mercadorias, profissão que chama de saqueiro - e se aposentou. Ele não quis falar para que usa os R$ 350 recebidos por mês. “Não. Especulações sobre minha vida não aceito.”
José Faustino diz ser viúvo e não ter contato com outros familiares. Ele tem vontade, mas só deixa a atual moradia se tiver uma casa para viver. Ir para um asilo? Não quer. “Tenho 74 anos, mas não estou aleijado, estou bem. Vou para o asilo para quê?”. Para o Abrigo Provisório? Também não. “Não quero ficar preso. Não matei ninguém, por que iria para lá? Meu gênio não combina com esses lugares”, disse. “Agora se for para morar numa casa, eu vou.”
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